Silviano Santiago e a escrita da vida

Silviano Santiago e a escrita da vida

As biografias viraram um gênero de altíssimo sucesso de vendas e, ao mesmo tempo, de uma obviedade constrangedora. O que mais se vê são as narrativas de vencedores, homens exemplares. As trajetórias de quem começou do nada, superou dificuldades, venceu traumas, foi abusado na infância, sofreu maus-tratos e, no fim, alcançou alguma forma de redenção. Os enredos se repetem. Existe também o outro extremo: as biografias de figuras execráveis, escritas para recuperar o lado humano delas. O biografismo atual é um campo que produz muito, com ambição quase nenhuma e pouca complexidade.

Escrever biografias é, na verdade, um dos gêneros mais difíceis. Como nota Fernando Novais, uma boa “escrita da vida” exige construir uma correlação entre o personagem, sua vida e a sociedade e o tempo em que tudo isso se inscreve. Não basta juntar episódios ou alinhavar fatos. É preciso mostrar como um sujeito se relaciona com a época que viveu e como essa época, por sua vez, atravessa sua história pessoal. É um trabalho de alta sofisticação. Diante de um segmento de mercado tão repetitivo, uma biografia diferente, feita por outro caminho, chama logo a atenção.

Presente do Acaso
Presente do Acaso: Um Ensaio Biográfico sobre Silviano Santiago, João Pombo Barile (Editora Autêntica, 344 páginas)

O livro “Presente do Acaso” (2025), de João Pombo Barile, aparece como um trabalho que foge do padrão rebaixado das biografias. A narrativa é um “ensaio biográfico”, segundo o autor, para tratar de uma vida anfíbia: a do escritor de ficção, poeta e crítico da cultura contemporânea Silviano Santiago. Sua trajetória extensa começa no interior de Minas Gerais, passa pela juventude em Belo Horizonte, segue pelas faculdades nos Estados Unidos e prossegue no Brasil dos anos 1970. É trabalho de escrita para quem entende de tecer linhas e criar bordados.

A biografia é construída no ritmo de uma conversa contínua entre o autor e Silviano. O personagem interfere o tempo todo. Dá palpites, corrige rumos, reprime o biógrafo, entra em atritos e baliza o texto. Ele autoriza uma invasão de privacidade consentida, abrindo arquivos pessoais, cartas e documentos, que são vasculhados sempre sob sua presença atenta. Silviano vira voz da consciência. O resultado é um material rico e informativo, pois acompanha uma trajetória intelectual ao longo de décadas, dos anos 1950 aos 2020, e permite ver de perto o debate cultural desse período.

Diante da ansiedade do biógrafo, Silviano é impiedoso: “Fique tranquilo. Temos tempo. É preciso, antes de tudo, achar a forma. Você está acostumado com texto de jornal. Aqui é diferente. Só se começa um livro depois que a gente acha o narrador. (…) Tudo pode entrar nesse livro. Inclusive isto: a dificuldade do começo. Entende? De eu lhe perguntar sobre como será o livro; de eu me levantando e indo até a cozinha para trazer cereja e pão de queijo. Entende? Acredite: quero te ajudar a encontrar uma maneira de escrever esse livro. (…) Você não pode escrever esse livro de fora. Engano seu. Você pretende ser objetivo: não há como. Impossível. Não existe essa possibilidade de você escrever esse livro do lado de fora”.

Trajetória pelo mundo

Silviano nasceu em Formiga, uma cidade mineira onde nada indicava o que ele viria a se tornar na vida. A mãe morre quando ele tinha um ano e meio. O pai se casa novamente, fazendo a família crescer. Essa história é contada no livro “O Menino sem Passado” (2021). Barile complementa as memórias do autor e costura o bordado desse período no ensaio biográfico. No livro, o biografado diz, infelizmente, que pretende ficar apenas no primeiro volume de memórias e desistir dos próximos dois que estavam prometidos.

A juventude de Silviano nos anos 1950 é especialmente interessante, principalmente pelo encontro com Ezequiel Neves, jornalista e produtor musical, que se torna seu grande amigo e companheiro de vida. A proximidade é tão intensa que se tornou o tema do romance “Mil Rosas Roubadas” (2014), em que Silviano narra a história de Zeca, o amigo que morre e cuja vida é recontada pelo narrador. A força dessa relação lembra o primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorim em “Grande Sertão: Veredas”, quando surge um afeto profundo entre duas pessoas. Ezequiel se torna uma figura inesquecível para ele, e a biografia retorna sempre a essa ligação.

Um dos pontos reveladores da biografia é a trajetória de Silviano como professor nos Estados Unidos. Ele passa por Albuquerque, no estado do Novo México, depois por Buffalo (próximo de Nova York) e também por Montreal, no Canadá. Esse período é muito bem narrado. É também o momento em que ocorre o encontro decisivo com os pós-estruturalistas franceses, especialmente Jacques Derrida, que se tornou influente nos Estados Unidos justamente quando Silviano leciona por lá nos anos 1970. Trata-se de uma afinidade intelectual que alimenta até hoje a obra crítica do brasileiro.

Outra figura fundamental que o biografado encontra nesse período americano é o artista plástico Hélio Oiticica. A biografia reconstitui como era o mundo vivido por eles em Nova York, com artistas, exilados latino-americanos, imigrantes caribenhos e as articulações políticas do Brasil e dos Estados Unidos. Esse ambiente aparece depois no romance “Stella Manhattan” (1984), no qual Silviano incorpora o universo que viveu na virada dos anos 1960 para os anos 1970. O romance foi uma das primeiras reflexões profundas sobre a ditadura militar e as transformações comportamentais do mundo, numa escrita finíssima e, por que não, muito divertida.

Retorno ao Brasil

A biografia acompanha a chegada de Silviano ao Rio de Janeiro, nos anos 1970, quando ele deixa a carreira de professor nos Estados Unidos e passa a lecionar na PUC-Rio. O período é tratado de modo mais sintético no livro. Poderia ser mais extenso, mas ali aparecem pontos importantes para a compreensão daqueles anos. Houve o mal-estar causado no meio acadêmico pelas ideias de Silviano ligadas ao desconstrucionismo, as rusgas internas no departamento da universidade, a amizade inicial com o poeta e professor Affonso Romano de Sant’Anna e, depois, o rompimento entre os dois.

Quando introduz a desconstrução no debate brasileiro, nos anos 1970, sobretudo com o ensaio “O Entrelugar do Discurso Latino-Americano”, Silviano criou uma alternativa de pensamento ao que existia então entre o conservadorismo cultural e uma esquerda mais dogmática. A crítica à ditadura, naquele momento, muitas vezes tendia à opção da luta armada ou à ideia de revolução. Silviano abriu outra perspectiva. Ele amplia o olhar ao oferecer caminhos que, mais adiante, se tornariam fundamentais para o discurso das minorias e o que depois seria reconhecido como debate identitário. É também um dos primeiros a trazer a temática LGBTQIA+ tanto para a literatura quanto para o debate público no Brasil, uma posição muito avançada.

Em outros escritos, Silviano já contou esse período com mais detalhes e histórias muito interessantes. A diferença em “Presente do Acaso” é que ele estabelece um pacto com o biógrafo. Não se comenta nada que possa expor, constranger ou invadir a privacidade de seus amigos. Ele deixa claro que não narrará episódios que possam parecer fofoca, e o livro segue essa linha, tornando-se uma narrativa muito escrupulosa.

Ao focar a virada para os anos 1980, ganha destaque no livro o processo de feitura do romance “Em Liberdade”, no qual Silviano criou um diário fictício de Graciliano Ramos. A biografia detalha o surgimento da ideia do livro a partir da prisão do irmão mais próximo do escritor, Haroldo, e das oficinas de escrita com John Barth nos Estados Unidos. O romance-ensaio nasce da comoção provocada pela prisão dele, por sua militância política, e da experiência familiar do desespero causado quando alguém era levado. É esse episódio que serve de gatilho para a criação do romance, que colocou Silviano Santiago no mapa das letras brasileiras.

Neste ponto, surge no livro o relato de implicância do crítico Wilson Martins em relação ao trabalho de Silviano Santiago. O decano da crítica jornalística não entendeu nada de “Em Liberdade”, assim como se recusava a compreender Guimarães Rosa e até mesmo a literatura de Chico Buarque. Barile não espicha a fofoca, mas muita gente notou que o crítico literário de “Stella Manhattan” é um dedo-duro da ditadura brasileira que leciona nos Estados Unidos e foi inspirado na figura de Martins.

Ensaios-conversas

Como o livro é feito de conversas, surgem comentários que funcionam como “micro-ensaios” literários. Silviano analisa, por exemplo, Graciliano Ramos sob um ponto de vista específico, o do intelectual em extrema dificuldade, obrigado a trabalhar no Estado Novo de Getúlio Vargas, mas que se distancia do lado progressista dos intelectuais da época. Surge um Graciliano que não acredita na ideia de progresso, algo muito diferente naquele momento, antecipando uma visão atual marcada pela ideia de catástrofe dos projetos políticos e sociais dos modernistas.

Diz Silviano: “Acho Graciliano, de todos os modernistas, o único que nunca foi comprometido com o projeto de modernização do Brasil. Ele é diferente de todos os outros que, mais ou menos engajados, acreditaram no nosso projeto de modernização. Todos tinham uma mente desenvolvimentista. Em todos existia uma necessidade de atualização, todos queriam fazer com que o Brasil entrasse na história, e numa história que seria pura industrialização. Todos os modernistas, por exemplo, embarcaram no projeto tenentista: na sua forma conservadora, que nos deu o general Golbery. E na sua forma revolucionária, que nos deu Luís Carlos Prestes. Graciliano, não. Ele nunca acreditou no projeto de modernização conservadora. E essa sua visão me interessava”.

Ao falar de Guimarães Rosa, Silviano observa que o autor de “Grande Sertão: Veredas” revela um mundo que os letrados não conhecem, desvendando um universo que leitores e intelectuais brasileiros desconheciam. As análises aparecem naturalmente na conversa do biógrafo com Silviano. A biografia se torna assim um trabalho estimulante. É uma obra que, sem dúvida, foge do convencional. Isso lembra o título de um livro de ensaios de Silviano Santiago, que cita Mário de Andrade: “Ora (Direis) Puxar Conversa!”. Existe ali uma crença profunda na interlocução com o outro. Para quem não conhece o biografado, o livro de Barile abre justamente esse diálogo próximo que apresenta Silviano Santiago e sua obra de ficção e crítica.