Robert Grainier aparece primeiro como mais um trabalhador anônimo nas encostas úmidas do Noroeste americano, carregando troncos, erguendo pontes, calculando o próprio corpo contra a madeira que pode esmagá lo a qualquer deslize. Em “Sonhos de Trem”, dirigido por Clint Bentley e protagonizado por Joel Edgerton, com participações decisivas de Felicity Jones e Kerry Condon, esse homem sem grandes ambições fica preso entre a necessidade de sobreviver e o desejo discreto de construir um lar que resista às temporadas de corte de árvores. O conflito central nasce justamente desse impasse: conciliar um trabalho itinerante e exaustivo com a vontade de permanecer perto da família em um país que muda mais rápido do que ele consegue acompanhar.
Antes de chegar a essa tentativa de estabilidade, o filme mostra Robert aceitando seguir os trilhos em construção, mudando de frente de serviço sempre que o chefe anuncia novas obras. Ele decide embarcar nessa vida nômade porque não vê alternativa econômica, mas também porque sente uma curiosidade inconfessada diante daquele mundo de aço, fumaça e barulho que redesenha o mapa à sua frente. O obstáculo é duplo: além do risco físico constante, o isolamento dos acampamentos impede vínculos duradouros. Cada novo contrato melhora um pouco o pagamento e amplia a experiência profissional, porém empurra para mais longe a possibilidade concreta de enraizamento afetivo e de proteção cotidiana.
Quando finalmente conhece Gladys e decide construir uma cabana às margens de um rio, a narrativa acompanha uma breve ascensão. Há casamento, há nascimento de uma filha, há vizinhos que passam a chamar o lenhador pelo nome, e Robert tenta planejar as temporadas longas na mata em função de dias condensados de convivência em casa. A motivação é clara: garantir sustento para quem ama sem abandonar a única habilidade que domina. O obstáculo continua sendo o tempo, repartido entre turnos exaustivos e poucos momentos de intimidade iluminados por uma fotografia suave que sublinha, sem explicar, o equilíbrio precário daquela alegria.
No meio desse caminho, um episódio violento corrói a confiança que Robert tenta construir em relação ao próprio caráter. Ao presenciar o ataque a um trabalhador chinês acusado de furto, ele hesita entre intervir e seguir com o grupo, e acaba escolhendo a omissão, movido pelo medo imediato de romper com os colegas e pelo hábito de obedecer silenciosamente às decisões de quem paga o salário. O obstáculo ali é um racismo naturalizado, que se impõe como ordem não escrita. Depois, a montagem faz esse momento retornar em forma de sonho e de alucinação, costurando o rosto do imigrante ao som dos trilhos e às chamas que tomam a floresta, como se a culpa ecoasse em cada árvore derrubada.
Quando um incêndio devasta o vale em que a cabana da família foi erguida, a rota desse homem muda de forma definitiva. Robert volta do trabalho guiado por boatos de fumaça e cartas atrasadas, encontra árvores enegrecidas, estruturas no chão, rostos conhecidos em choque, e precisa decidir se aceita a ausência da esposa e da filha como morte certa ou se alimenta, contra toda evidência, a esperança de reencontro. A motivação racional aponta para o luto, montado em rituais; a motivação íntima insiste em preservar algum traço de vida. O efeito imediato é um estado de suspensão em que cada gesto cotidiano parece tentativa de negociar com o que se perdeu sem admitir totalmente essa perda.
Passam-se os anos e Robert escolhe permanecer naquela região, mesmo quando antigos colegas partem em busca de oportunidades mais estáveis em outras cidades. Ele fica. Conhece novos capatazes, novos lenhadores, o especialista em explosivos Arn Peeples, a funcionária do serviço florestal Claire, gente que entra e sai da sua vida como trens que não param na pequena estação. A motivação é simples: ele domina aquele terreno e tem medo de recomeçar em outro lugar. O obstáculo também é simples e imenso ao mesmo tempo. O mundo acelera. As máquinas mudam. O corpo envelhece. Cada decisão de permanecer aumenta o peso do que poderia ter sido diferente e reforça a sensação de ser um sobrevivente fora de época.
Já velho, num país que comenta foguetes e viagens espaciais enquanto ele ainda mede distâncias pelo barulho dos vagões, Robert aceita um convite inesperado para voar em um pequeno avião de turismo. Não é um gesto grandioso; é um impulso de curiosidade, ou melhor, uma tentativa tardia de olhar o próprio caminho de outro ângulo. O obstáculo é concreto, envolve medo físico e vertigem, a consciência de que qualquer falha pode derrubá lo. O efeito imediato comprime o tempo: ao se afastar do chão, ele revive em sequência paisagens, rostos e decisões que pareciam enterradas, como se o espaço ao redor abrisse uma fresta para reordenar a memória.
Depois desse voo, nada se resolve, mas algo muda na forma como Robert percorre os dias restantes. Ele continua morando perto da antiga cabana, caminhando entre trilhos enferrujados, troncos cortados, botas pregadas em árvores que agora quase somem sob o musgo. A decisão diária de permanecer naquele pedaço de mata, de cozinhar na mesma fogueira, de observar o mesmo rio, funciona como pequena recusa em aceitar que tudo virou passado distante. O obstáculo é a própria passagem do tempo, que insiste em arrancar conhecidos, empregos, florestas. O efeito, porém, é a sensação de que, enquanto houver um trem ao longe e o estalo das folhas secas sob as botas, aquela vida ainda continua em movimento.
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