O tesouro invisível da internet brasileira: por dentro da Biblioteca Nacional Digital

O tesouro invisível da internet brasileira: por dentro da Biblioteca Nacional Digital

A Biblioteca Nacional Digital (BNDigital) consolidou-se, ao longo de quase duas décadas, como o principal repositório público de documentos digitalizados no Brasil. Criada em 2006 pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN), no Rio de Janeiro, a plataforma reúne atualmente mais de 3 milhões de documentos, somando mais de 40 milhões de páginas disponíveis gratuitamente na internet. O conjunto inclui livros, jornais, revistas, manuscritos, fotografias, mapas, partituras, material cartográfico e exposições virtuais que reorganizam o acervo em recortes temáticos.

Vinculada ao Ministério da Cultura, a FBN define a BNDigital como extensão digital de seu acervo físico. A missão é dupla: proteger obras ameaçadas pela deterioração de papel, películas e suportes sonoros antigos e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso público a coleções antes restritas às salas de leitura do prédio histórico. No portal, entram documentos em domínio público ou liberados por seus titulares, com exceções pontuais para acervos sonoros cujo uso integral permanece limitado ao ambiente da biblioteca.

A digitalização sistemática começou ainda no início dos anos 2000, em projetos piloto voltados a coleções específicas e exposições virtuais. A partir de 2006, essa produção dispersa passou a ser reunida sob o rótulo BNDigital, com infraestrutura própria de servidores, sistemas de gestão de acervo e equipes dedicadas. Em meados da década seguinte, comunicados oficiais registravam cerca de 900 mil documentos e 11 milhões de páginas disponíveis, com centenas de milhares de acessos mensais, o que já pressionava a capacidade de armazenamento e exigia investimentos permanentes em tecnologia.

O salto de escala veio com a criação da Hemeroteca Digital Brasileira, que se tornou a face mais conhecida da BNDigital. Financiada por chamadas públicas de fomento, a hemeroteca reuniu o vasto acervo de jornais e revistas microfilmados ao longo de décadas. Hoje, o portal oferece acesso remoto a milhares de títulos da imprensa brasileira, de grandes diários nacionais a periódicos regionais já extintos, cobrindo do início do século 19 ao final do século 20.

A força da hemeroteca está na combinação entre volume e ferramenta de busca. O sistema permite localizar publicações por título, data, local de edição e palavras presentes no miolo da página, graças à aplicação de reconhecimento óptico de caracteres sobre os arquivos digitalizados. O resultado é um ambiente em que pesquisadores encontram discursos parlamentares, anúncios, crônicas, críticas culturais e notícias de cotidiano lado a lado, com possibilidade de recorte fino por período e tema, algo inviável na consulta física de coleções fragmentadas.

Para além dos periódicos, a BNDigital organiza conjuntos que refletem a estrutura do acervo físico da Biblioteca Nacional. Há coleções de obras gerais, literatura, ensaio e referência; fundos de manuscritos, cartas e documentos administrativos; mapas e cartas geográficas; álbuns de fotografias e gravuras. Parte desse material é apresentado em portais especializados, como a Brasiliana Fotográfica, a Brasiliana Iconográfica, a Biblioteca Digital Luso-Brasileira e o Projeto Resgate, que reúne documentação colonial localizada em arquivos europeus.

Do ponto de vista do usuário, a porta de entrada é um mecanismo de busca único, combinado a menus que permitem filtrar o conteúdo por tipo de documento, coleção, assunto ou intervalo de datas. Estudos acadêmicos que avaliaram a usabilidade da BNDigital destacam a amplitude do acervo, mas identificam desafios de navegação para o público geral, com excesso de informações na página inicial e rotulagem pouco intuitiva de alguns filtros. Ao mesmo tempo, apontam que pesquisadores experientes valorizam a quantidade de metadados e a proximidade entre organização física e digital.

Os números de acesso ajudam a dimensionar o impacto desse repositório. Levantamentos divulgados pela FBN indicam que, somando BNDigital e Hemeroteca, o portal já registrou centenas de milhões de consultas. O uso cresceu de maneira acentuada durante a pandemia de covid-19, quando escolas, universidades e veículos de imprensa intensificaram a busca por fontes primárias disponíveis online. Em comunicados recentes, a direção da Biblioteca Nacional tem classificado a BNDigital como um dos sites mais acessados de todo o governo federal.

A preservação de longo prazo desse acervo digital tornou-se, por isso, questão estratégica. Em 2020, a Biblioteca Nacional formalizou uma política de preservação digital e aderiu à Rede Cariniana, iniciativa que distribui cópias de repositórios por diferentes instituições, reduzindo riscos de perda em caso de falhas físicas ou ataques cibernéticos. A decisão implica rever fluxos de ingestão de arquivos, padrões de formatos e rotinas de auditoria tecnológica.

Em fevereiro de 2025, o processo ganhou novo impulso com a aprovação de um financiamento de R$ 18,8 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O recurso foi dividido em dois projetos complementares: um focado na recuperação de acervos científicos e na digitalização de catálogos históricos e outro dedicado à modernização dos portais da Biblioteca Nacional, ao reforço da infraestrutura de armazenamento e à melhoria dos sistemas de acesso público, incluindo a BNDigital e a Hemeroteca Digital.

Na prática, a combinação entre acervo crescente, políticas de preservação e novos investimentos coloca a BNDigital no centro da discussão sobre acesso à memória, transparência e pesquisa no Brasil. Para quem produz história, jornalismo, material didático ou conteúdo cultural online, o portal funciona como atalho para documentos que antes exigiam deslocamentos, intermediações e custos elevados. O desafio é tornar a plataforma mais conhecida fora dos círculos acadêmicos e aperfeiçoar a navegação, a fim de que qualquer pessoa consiga transformar curiosidade em descoberta documentada.