Obra-prima vencedora do Oscar, de Denis Villeneuve, na HBO Max Divulgação / Paramount Pictures

Obra-prima vencedora do Oscar, de Denis Villeneuve, na HBO Max

A primeira impressão que “A Chegada“ provoca é a de um deslocamento calculado: o filme não se apoia em estímulos fáceis nem tenta mascarar sua estrutura com truques formais. Ele aposta em algo mais ambicioso, ainda que discreto. O ponto de partida é simples, quase austero. Louise Banks, interpretada por Amy Adams, atravessa um campus silencioso para lecionar linguística enquanto o mundo tenta compreender o aparecimento de doze naves fixadas sobre o planeta com uma imobilidade inquietante. Nesse contraste entre a rotina universitária e a tensão global, o filme encontra uma chave: a linguagem como instrumento precário diante do desconhecido.

A entrada de Louise no centro da crise ocorre quando o coronel Weber, vivido por Forest Whitaker, requisita sua experiência para decifrar o sistema comunicativo dos visitantes. A missão é compartilhada com Ian Donnelly, interpretado por Jeremy Renner, cuja formação científica complementa a abordagem de Louise. O deslocamento até Montana, onde uma das naves flutua a poucos metros do solo, conduz o espectador a um contato que não pretende chocar, mas sim instaurar uma sensação de suspensão. O interior da nave dispensa efeitos pirotécnicos e parece concebido para desorientar: gravidade instável, silêncio prolongado, um painel translúcido que separa os humanos dos dois heptápodes conhecidos como Abbott e Costello.

A partir desses encontros, a narrativa organiza seu núcleo: traduzir um idioma que não possui correspondência fonética, sintática ou lógica com o repertório humano. O filme acompanha esse processo com rigor, evitando romantizações sobre comunicação universal. Cada avanço é frágil, sujeito a interpretações conflitantes. O estudo das formas circulares traçadas pelos heptápodes funciona como exercício simultâneo de paciência e humildade. O que inicialmente parece apenas um código incomum revela uma gramática radicalmente distinta, com implicações filosóficas que ultrapassam o campo linguístico. É nesse ponto que a experiência de Louise ganha densidade. Suas percepções começam a se reorganizar na mesma estrutura não linear do idioma alienígena, e o filme costura essa transformação com imagens que sugerem uma relação incomum entre memória e antecipação.

À medida que a comunicação avança, cresce também a impaciência política. Michael Stuhlbarg interpreta o agente Halpern, cuja preocupação com segurança nacional acelera decisões precipitadas. Outras potências globais adotam postura semelhante, tratando qualquer ambiguidade como ameaça. Quando uma mensagem dos heptópodes passa a ser entendida como um possível convite a uma guerra, as margens para negociação se estreitam. A narrativa, então, revela que seu verdadeiro interesse não está no conflito militar, mas na forma como mal-entendidos moldam nossa capacidade de agir. Louise percebe que a mensagem pode ter sido interpretada de maneira equivocada e insiste em aprofundar o diálogo mesmo quando o risco se torna evidente.

O desfecho se constrói a partir dessa insistência. A linguagem circular dos heptópodes não apenas transmite informações, mas reorganiza a percepção temporal de quem a compreende. Louise passa a acessar eventos futuros com a mesma nitidez das lembranças do passado. O filme articula esse ponto sem carregá-lo com explicações excessivas, permitindo que o espectador acompanhe a descoberta gradualmente. Surge, assim, uma perspectiva de tempo em que causa e consequência coexistem, e decisões pessoais ganham contorno mais nítido. A escolha de Louise diante do que sabe sobre sua própria vida futura não é tratada como paradoxo, e sim como afirmação de responsabilidade. Ela entende as perdas e, mesmo assim, decide prosseguir.

O filme encerra esse percurso sem recorrer à grandiloquência. Ao invés de um gesto heroico, o que prevalece é a constatação de que compreender o outro exige mais do que boa vontade: exige disposição para abandonar pressupostos e aceitar que certas respostas podem exigir estruturas de pensamento inteiras, e não apenas palavras novas. “A Chegada“ sustenta essa reflexão com sobriedade, como se soubesse que a verdadeira perturbação não está nos heptópodes, mas naquilo que revelam sobre nossa dificuldade de interpretar o mundo sem distorcê-lo. Essa clareza, mesmo silenciosa, produz uma força rara.

Filme: A Chegada
Diretor: Denis Villeneuve
Ano: 2016
Gênero: Drama/Ficção Científica/Mistério
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.