Que atire a primeira pedra aquele que nunca começou um romance promissor, com uma narrativa envolvente, personagens intrigantes e promessas de boas reviravoltas e, algumas dezenas de páginas depois, flagrou-se perdido em longos parágrafos autorreferentes, expressões técnicas que tentam suprir a pobreza narrativa e reflexões impenetráveis, mais afeitas aos trabalhos acadêmicos do que às obras de ficção. Materializa-se-nos o sentimento de que, em vez de ler uma história, nos encurrala um tratado. Para desvendar a razão do fenômeno é necessário tocar em aspectos fundamentais da escrita literária contemporânea, uma eterna peleja entre forma e conteúdo, arte e retórica.
A literatura sempre foi por natureza um espaço de reflexão larga e abrangente e muitos autores escrevem com o legítimo desejo de manifestar sua inquietação diante dos temas que sacodem o mundo. No entanto, há uma diferença entre denunciar uma realidade complexa e propor soluções para seus problemas como quem defende uma teoria. A tentação de querer provar uma hipótese pode fazer com que o autor transforme personagens em porta-vozes de ideias, falas em ensaios e histórias em demonstrações. O didatismo corrompe qualquer possibilidade de beleza e até de entendimento, e a organicidade da ficção dá lugar a uma estrutura rígida, sem espaço para o subjetivo. Tudo quanto um romance digno desse nome deve ter.
Não é incomum encontrar romances com uso excessivo de jargões científicos, réplicas de autores teóricos, estruturas de raciocínio austeras, típicas de artigos universitários. Isso não quer dizer que a academia deva ser completamente expurgada da literatura, pelo contrário: grandes obras dialogam com ideias labirínticas. O problema é quando o romance abre mão da sua linguagem simbólica para apenas explicar. O leitor, em vez de render-se à emoção, sente-se como numa aula — ou, pior, realizando uma prova. Cada vez mais, o mercado editorial têm valorizado livros que esquadrinham “temas importantes” e fomentam “discussões urgentes”. Embora isso tenha um lado positivo — o de dar visibilidade a questões sociais e humanitárias, por exemplo —, tal expediente também contribui para sobrecarregar certas obras, que se sentem na obrigação de “instruir”, transformando-se em mero instrumento de engajamento político ou social, deixando a história em segundo plano ao tentar esgrimir sobre uma pletora de assuntos e acolher tantíssimos debates. Antes envolvido com os personagens, o leitor de repente percebe que eles sumiram, que a trama estagnou e que tudo agora gira em torno de conceitos. É o que acontece, em maior ou menor grau, com as sete publicações da lista abaixo, com destaque para o ainda hoje muito comentado “O Mundo de Sofia” (1991), do norueguês Jostein Gaarder, que acompanha uma garota pela jornada de pesar e evolução que deve ser a vida de todo indivíduo. O busílis é a pertinácia de Gaarder quanto a sobrepor acontecimentos inauditos a sua protagonista ao longo de 560 páginas. O leitor se põe, justificadamente, atordoado.
Não há nada de inconveniente em querer escrever um romance com conteúdo denso, com temas sérios, com discussões importantes. A literatura não precisa ser superficial ou escapista. Mas ela também não deve ser um disfarce para uma monografia. O grande desafio do escritor é transformar ideias complexas em experiências sensíveis, envolventes, humanas. É fazer pensar sem deixar de emocionar. É ensinar sem parecer que está pregando. A boa ficção não precisa explicar tudo. Às vezes, não precisa explicar nada.

“2666” é considerado o ápice da obra literária de Roberto Bolaño e uma das realizações mais ambiciosas da literatura latino-americana contemporânea. Publicado postumamente em 2004, o romance é monumental tanto em extensão quanto em profundidade temática, abordando questões como o mal, a violência, a arte, a crítica literária e a busca humana por sentido. Dividido em cinco partes aparentemente autônomas, mas interligadas por personagens, temas e atmosferas, o livro é estruturado de maneira fragmentária. Essa escolha formal espelha o caos e a complexidade do mundo moderno, e desafia o leitor a construir conexões por meio de pistas sutis. As partes — A Parte dos Críticos, A Parte de Amalfitano, A Parte de Fate, A Parte dos Crimes e A Parte de Archimboldi — abordam diferentes perspectivas sobre um enigma central: os assassinatos seriais de mulheres na fictícia cidade de Santa Teresa, recorte do cotidiano de Ciudad Juárez, no México. Um dos aspectos mais notáveis de “2666” é sua recusa em oferecer soluções claras ou arcos narrativos tradicionais. Bolaño propõe uma narrativa descentralizada, que imerge o leitor em uma espécie de labirinto de temas, estilos e vozes. O mal é retratado como uma força onipresente e quase incompreensível, e a literatura — longe de ser redentora — é mostrada como frágil diante da brutalidade do mundo.

“O Mundo de Sofia”, escrito pelo norueguês Jostein Gaarder, é uma obra híbrida entre romance e introdução à filosofia. A narrativa gira em torno de Sofia Amundsen, uma adolescente norueguesa que começa a receber cartas misteriosas contendo lições filosóficas. Com o passar do tempo, ela mergulha em uma jornada que atravessa os principais pensadores e correntes filosóficas da história ocidental, desde os pré-socráticos até a filosofia contemporânea. O livro se destaca pela forma didática com que apresenta conceitos complexos, tornando-os acessíveis ao público jovem. No entanto, a obra vai além da função pedagógica: à medida que a trama avança, o leitor é envolvido por um enredo metafísico e surpreendente, no qual a própria existência dos personagens é questionada. Gaarder provoca reflexões profundas sobre identidade, livre-arbítrio e realidade, desafiando a linha entre ficção e filosofia. Apesar de seu tom didático, o livro por vezes peca por simplificar demais alguns temas, o que pode desagradar leitores mais experientes. Ainda assim, cumpre com excelência seu objetivo principal: despertar o interesse pela filosofia. “O Mundo de Sofia” é, portanto, uma leitura instigante, que convida o leitor a pensar criticamente sobre o mundo e sobre si mesmo.

“A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera (1929-2023), é uma obra complexa que entrelaça filosofia, política e relações humanas. Ambientado na então Tchecoslováquia durante a Primavera de Praga, o romance explora a vida de quatro personagens principais: Tomás, Teresa, Sabina e Franz. Tomás, um médico mulherengo, vive um dilema entre o amor profundo por Teresa e o desejo por liberdade. Teresa, sua esposa, representa o peso do compromisso e da busca por sentido. Sabina, artista e amante de Tomás, personifica a leveza e a rebeldia contra convenções. Já Franz, amante de Sabina, é guiado por ideais políticos e morais. Kundera reflete sobre o conceito de “leveza” e “peso” como metáforas existenciais. A leveza, embora pareça libertadora, pode ser insustentável quando afasta-nos de vínculos e significados. O peso, por outro lado, dá profundidade à vida, mesmo que traga dor e responsabilidade. O autor mistura narrativa com ensaios filosóficos, questionando o eterno retorno de Nietzsche e a busca por autenticidade. A obra é uma profunda meditação sobre liberdade, amor e identidade, marcada por um estilo introspectivo e poético. “A Insustentável Leveza do Ser” convida o leitor a repensar suas escolhas e o sentido da existência.

“Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, de Robert M. Pirsig, é uma obra filosófica disfarçada de romance de viagem, na qual o autor-narrador relata uma jornada de motocicleta pelos Estados Unidos com seu filho Chris. Mais do que um simples relato, o livro mergulha profundamente na reflexão sobre a qualidade, a razão, a emoção e os modos de conhecer o mundo. A narrativa contrapõe dois estilos de vida: o clássico (analítico, técnico) e o romântico (intuitivo, estético), propondo que ambos são necessários para uma compreensão mais completa da realidade. Pirsig propõe a filosofia do “Metafísico da Qualidade”, uma tentativa de integrar razão e sentimento, tecnologia e arte, em um só paradigma. A manutenção da moto torna-se metáfora para o cuidado com a vida e a busca por sentido. O autor também relata suas experiências com transtornos mentais e a divisão de sua identidade, intensificando o tom introspectivo da obra. A crítica à alienação moderna, à educação tecnicista e à separação entre sujeito e objeto atravessa o texto. O livro desafia o leitor a questionar valores estabelecidos e a cultivar uma atenção mais profunda ao cotidiano. Sua linguagem densa e suas digressões filosóficas exigem esforço, mas recompensam com insights marcantes. Assim, Pirsig oferece uma jornada existencial tanto quanto geográfica, convidando à integração entre pensamento e vivência.

“O Som e a Fúria”, de William Faulkner, é uma obra fundamental da literatura modernista, marcada por sua complexa estrutura narrativa e profunda carga emocional. A trama gira em torno da decadência da família Compson, uma aristocracia sulista em ruínas, apresentada por meio de quatro perspectivas distintas, cada uma oferecendo uma visão fragmentada e subjetiva dos acontecimentos. A técnica do fluxo de consciência, especialmente nos capítulos narrados por Benjy e Quentin, mergulha o leitor nas profundezas do trauma, do tempo e da memória, tornando a leitura desafiadora, mas enriquecedora. Faulkner desconstrói o tempo linear e explora as fissuras psicológicas de seus personagens, enfatizando temas como a perda, o fracasso moral, o racismo e o papel da mulher no Sul dos Estados Unidos. Caddy, embora nunca narre diretamente, é o eixo emocional da narrativa, sendo lembrada de forma idealizada, conflituosa ou dolorosa por seus irmãos. A linguagem densa e simbólica do autor exige do leitor uma atenção redobrada, mas recompensa com uma compreensão mais rica das angústias humanas. O romance é, acima de tudo, uma meditação sobre o colapso das estruturas tradicionais — familiares, sociais e mentais — diante de um mundo em transformação. Faulkner não oferece respostas fáceis, mas propõe uma experiência literária intensa e única, onde forma e conteúdo se entrelaçam para revelar a fúria contida no som do silêncio e da memória.

“A Náusea”, de Jean-Paul Sartre, é uma obra fundamental do existencialismo, publicada em 1938, que explora profundamente a angústia e o absurdo da existência. O romance é narrado em forma de diário por Antoine Roquentin, um homem solitário que vive em Bouville, uma cidade fictícia da França. Ao longo da narrativa, Roquentin é tomado por uma sensação crescente de repulsa — a “náusea” — ao confrontar a existência bruta e sem sentido das coisas ao seu redor. Essa revelação o desestabiliza, pois ele percebe que não há essência ou finalidade inerente à vida. Sartre, por meio dessa experiência existencial radical, questiona as convenções sociais, a identidade pessoal e a própria ideia de realidade objetiva. A linguagem, antes ferramenta de compreensão, torna-se opaca e insuficiente. A náusea é o sintoma de uma liberdade angustiante: a constatação de que o ser humano está condenado a ser livre, responsável por dar sentido ao que essencialmente não tem nenhum. O romance é denso, filosófico e introspectivo, oferecendo uma crítica feroz à alienação burguesa e à busca por conforto em verdades absolutas. Ao final, Roquentin vislumbra a possibilidade de recriar o sentido da existência por meio da arte, sugerindo que, mesmo diante do absurdo, o ser humano pode reinventar sua vida. Sartre, assim, inaugura uma literatura de enfrentamento, que convida o leitor a encarar a liberdade e o vazio com coragem.

Publicado em 1924, “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, é uma obra-prima da literatura moderna que mergulha nas complexidades do tempo, da doença e da existência humana. A narrativa acompanha Hans Castorp, um jovem engenheiro alemão que visita um sanatório nos Alpes suíços para ver seu primo doente e acaba permanecendo lá por sete anos. Ao longo de sua estadia, Hans passa por uma profunda transformação intelectual e espiritual, influenciado por personagens simbólicos como Settembrini, defensor da razão e do humanismo, e Naphta, que representa o misticismo e o autoritarismo. O romance, com seu ritmo deliberadamente lento, explora o tempo subjetivo e utiliza o espaço isolado do sanatório como metáfora para a Europa pré-Primeira Guerra Mundial — doente e à beira de um colapso. Mann utiliza diálogos filosóficos densos e descrições minuciosas para discutir temas como a morte, a moralidade, o progresso e a natureza humana. “A Montanha Mágica” é uma leitura exigente, mas recompensadora. Sua riqueza simbólica e profundidade intelectual fazem dela uma obra fundamental para quem busca compreender as tensões espirituais e culturais do início do século 20. É um livro que desafia o leitor a refletir sobre o tempo, a vida e os limites da razão.