Autor: Giancarlo Galdino

Na Netflix, uma história que liga duas palavras que ninguém quer juntar: infância e escravidão Divulgação / Roadside Attractions

Na Netflix, uma história que liga duas palavras que ninguém quer juntar: infância e escravidão

À tragédia da imigração, soma-se um dado ainda mais perverso. Alimentado por corrupção e negligência do poder público, a escravatura no século 21 alicia em todo o mundo outros doze milhões de crianças como mão-de-obra abundante e barata para empresas clandestinas ou não, eixo em torno do qual move-se “A Cidade dos Sonhos”. Mohit Ramchandani joga luz sobre esse escândalo, óbvio, mas ignorado.

No Prime Video, um filme que te dá o poder de voltar no tempo… só para mostrar por que isso não salva ninguém Divulgação / Translux

No Prime Video, um filme que te dá o poder de voltar no tempo… só para mostrar por que isso não salva ninguém

Aos 21 anos, Tim ganha o poder de voltar no tempo, apenas ao ontem, e tenta reparar equívocos como se isso pudesse curar uma vida inteira. A premissa dialoga com “Feitiço do Tempo”, mas segue na direção oposta, oferecendo uma viagem divertida e comovente que esbarra na finitude e na incerteza. Entre Londres e Crawley, o segredo familiar surge numa conversa com o pai, enquanto Domhnall Gleeson e Bill Nighy sustentam o conto. No amor, sem bruxaria, a doçura também enjoa.

Vanessa Kirby entrega a atuação mais devastadora da década — e está na Netflix Benjamin Loeb / Netflix

Vanessa Kirby entrega a atuação mais devastadora da década — e está na Netflix

O filme de Kornél Mundruczó aposta no plano-sequência como torvelinho emocional, com diálogos disparados nos primeiros minutos e cada fala carregando um peso próprio. Martha Weiss e Sean atravessam o parto em casa, assistidos por uma parteira, até a morte de Yvette romper a família e corroer o amor. Em seguida, a presença de Elizabeth, mãe de Martha, amplia o conflito, enquanto culpa, processo, traição e colapso psicológico empurram a protagonista para um estado espectral. A metáfora da maçã conduz a recomposição e sustenta o desfecho épico.

A Netflix entrega uma parábola amarga: gente nova compra, gente velha some — e ninguém sai ileso Divulgação / Netflix

A Netflix entrega uma parábola amarga: gente nova compra, gente velha some — e ninguém sai ileso

Entre prequel e reboot, “O Massacre da Serra Elétrica: O Retorno de Leatherface” ecoa “O Massacre da Serra Elétrica” e “Halloween — A Noite do Terror”, defendendo a parte mais frágil, ainda que monstruosa. Sally Hardesty caça a criatura que a marcou quase cinquenta anos antes, enquanto Melody, Lila e Dante chegam a Harlow com influenciadores e despertam indignação local. A expulsão de Leatherface e da mãe aciona ódio, identidade e barbárie, num terror que usa gentrificação e maniqueísmo como motor.

Na Netflix, a paranoia nuclear vira entretenimento — e é impossível assistir sem pensar no mundo real Divulgação / Netflix

Na Netflix, a paranoia nuclear vira entretenimento — e é impossível assistir sem pensar no mundo real

Ambientado no atrito entre as duas Coreias e na sombra da Guerra Fria, “Steel Rain” parte de um atentado e encena o risco de uma debacle nuclear. Yang Woo-seok adapta sua webtoon com mão firme, mas sem oferecer grande proveito além do próprio longa, sustentado pela dupla Jung Woo-sung e Kwak Do-won. Entre reviravoltas, diferenças de vida no Norte e no Sul e uma relação forçada entre inimigos, o filme aciona sátira sociopolítica em chave de soft nonsense e exibe a excelência técnica do cinema sul-coreano.