Autor: Giancarlo Galdino

A Netflix tem um filme que parece sobremesa — e termina como saudade Divulgação / HBO Max

A Netflix tem um filme que parece sobremesa — e termina como saudade

Wes Anderson inventa mundos a seu talante. A faculdade de conceber outras terras, outros mundos e, claro, pessoas adequadamente estranhas a fim de os habitar é um valioso predicado artístico que Anderson burilou ao longo de quase três décadas de carreira, e “O Grande Hotel Budapeste” quiçá seja o filme no qual veja-se todo esse espetáculo de criatividade a se realizar em seu esplendor, servindo a ilusão, mas não só.

Quase ninguém notou: esse filme escondido na Netflix é um pequeno diamante (e vai te hipnotizar) Divulgação / Sophie Dulac Productions

Quase ninguém notou: esse filme escondido na Netflix é um pequeno diamante (e vai te hipnotizar)

A execução em massa de mulheres pela Inquisição — muitas pretas, judias, marranas ou homossexuais — ecoa no horror de “Silenciadas” (2020). No País Basco, inquisidores investigam rituais e encontram jovens como Ana, cuja beleza e independência afrontam um mundo machista. O filme expõe a Espanha como feudo em que a Coroa se impõe à Igreja, com Filipe III como autoridade máxima, e culmina no fogo que alimenta poções e cala vidas.

O melhor filme para ver neste fim de semana acabou de chegar na Netflix (Bill Murray, Tilda Swinton e Adrien Brody) Divulgação / Searchlight Pictures

O melhor filme para ver neste fim de semana acabou de chegar na Netflix (Bill Murray, Tilda Swinton e Adrien Brody)

Nos filmes de Wes Anderson, o mundo vem embalado para presente, num papel brilhante e colorido, e em “A Crônica Francesa do Liberty, Kansas Evening Sun” também é assim. Ninguém mais opina com sensatez, a velocidade das redes sociais faz pouco de fundamentos primários do bom jornalismo como a boa e velha apuração, e há quem caia na armadilha de querer competir com a insânia do algoritmo, um monstro que insistimos em alimentar e que nunca fica saciado. Uma metáfora das mais felizes sobre o abismo que nos contempla.

O filme mais “não consigo parar” da Netflix Lilja Jonsdottir / Netflix

O filme mais “não consigo parar” da Netflix

Ambientado na vastidão gelada da Groenlândia, “Contra o Gelo” acompanha a jornada do explorador Ejnar Mikkelsen e do ajudante Iver Iverson em uma missão de mapa, sob um pano de fundo histórico de disputa territorial. Peter Flinth valoriza a beleza plástica e incorpora notas do livro “Two Against the Ice”, mas o filme tropeça ao buscar reviravoltas e perde firmeza no desfecho, com um núcleo romântico artificial. Ainda assim, a convivência da dupla sustenta o investimento.

O filme mais surpreendente do Prime Video: o vilão não se esconde — ele senta à mesa e manda você sorrir Divulgação / Rova Film

O filme mais surpreendente do Prime Video: o vilão não se esconde — ele senta à mesa e manda você sorrir

Um pessimismo invulgar confere a “Presas” uma sensação claustrofóbica de instituições falidas e relações pessoais em permanente inconstância, tentando escapar do abismo. A adaptação do romeno Marian Crișan para “Moara cu Noroc” (“o moinho da sorte”, em tradução literal; 1881), do compatriota Ioan Slavici (1848-1925), reúne o melhor de Alfred Hitchcock (1899-1980) e Roman Polanski com uma pitada de Brian de Palma e Michael Haneke.