Entrevista com Mo Yan: Eu falo quando quero

Entrevista com Mo Yan: Eu falo quando quero

Nobel de Literatura em 2012, o escritor chinês, em sua primeira entrevista após o prêmio, fala ao semanário alemão “Der Spiegel” de sua relação com o Partido Comunista, polemiza sobre o regime e critica desafetos

“Eu falo quando quero” é uma das frases de Mo Yan, o au­tor chinês laureado com o Nobel da Literatura em 2012, que se encontra na entrevista a seguir. Muito já havia sido publicado sobre o autor antes que ele recebesse o prêmio. Mais ainda após a cerimônia realizada em Estocolmo, em 7 de dezembro de 2012. Constata-se que a profusão de informações mais serviu para confundir do que aclarar.

O Prêmio Nobel de Literatura já há anos costuma ser o mais controvertido. O concedido a Mo Yan não foge à regra. Já se vão quase quatro meses após a cerimônia em Estocolmo e poder-se-ia pensar que o assunto já não mais é tema para matéria de jornal. Acontece que, mesmo com a exuberância de artigos, comentários, ensaios e resenhas já publicadas na mídia europeia, o assunto continua em pauta e não poucas publicações chegam até ser irritantes ao abordar: dizer que o autor é ligado ao partido, que não faz uso da crítica ao governo chinês, que é ligado ao exército, que é comunista e coisas desse gênero tornaram-se demasiadamente repetitivas na imprensa escrita. Verdade, exagero ou simples falta de conhecimento de causa? São estes os detalhes que serão esclarecidos na presente entrevista.

Muito antes de receber o Prêmio Nobel, Mo Yan já explicara o seu posicionamento ante tais críticas. Após ter sido forçado a abandonar a escola primária aos 12 anos, Mo passou alguns anos trabalhando na agricultura. Com 17 anos, ingressou no exército chinês. Lá, muito cedo seus superiores perceberam que o jovem tinha talentos redacionais.

Passou a fazer parte de um grupo de soldados que receberam instrução especial em matéria de redação. “Tudo que eu aprendi na vida, foi o exército que me propiciou. Foi lá que aprendi a redigir. Sou eternamente grato ao exército”, disse Mo Yan em outra entrevista — e há resenhistas que tropeçam nessa confissão achando que é um elogio ao exército chinês. No entanto, Mo simplesmente mostra reconhecimento, agradecendo pela oportunidade que teve.

Na edição 1966 do Jornal Opção, Irapuan Costa Júnior, na coluna “Contraponto”, em seu texto “O valor do monotemático Mo Yan”, muito acertadamente observa: “Mo Yan é muito comprometido com a verdade, mesmo em sua ficção. Conta o que aconteceu, de bom e de ruim em sua China. Não importa que agrade ou desagrade (…) Mas conta tão bem e claramente que fica difícil desmenti-lo. Não tem outro lado que não seja o dos fatos (…) Mo Yan está à altura dessa vital e destrutiva riqueza de experiência (chinesa) e é por isso um dos maiores escritores contemporâneos”.

O verdadeiro nome do grande autor chinês é Guan Moye. Quando jovem, aos 10 anos, sua mãe costumava preveni-lo com as palavras “mo yan” que, em chinês, significam “não fale”. A mãe recomendava-lhe que tivesse cuidado e que nada falasse a outros meninos acerca daquilo que se conversava em casa. Não tardou e as cautelosas recomendações da mãe transformaram-se em apelido. “Mo Yan” que, por sua vez, tornou-se o pseudônimo oficial com o qual o grande literato entrará na História Universal da Literatura. Aos leitores que ainda não leram nenhum livro de Mo Yan sugiro, de início, não ler nada “sobre” Mo Yan, mas tudo “de” Mo Yan, pois “tudo está explicado em meus livros”, diz o autor.

A entrevista que segue foi publicada no semanário alemão “Der Spiegel”, n° 9, em 25 de fevereiro de 2013, editada em Berlim e foi feita por Susanne Beyer, da redação cultural, e por Bernhard Zand, correspondente da mesma revista em Pequim.

O que irrita é a maneira quase fanática com que, no mundo ocidental, se tenta colocar Mo Yan numa camisa de força. Esta tentativa transparece em muitas publicações e torna-se flagrante também nesta entrevista ao “Der Spiegel”. No entanto, Mo Yan nega-se a vesti-la. Em vez disso ele esclarece e explica — e o faz de forma perfeita e convincente. Uma entrevista que tem seus valores e é por isso que resolvemos traduzi-la na íntegra, tal qual foi publicada no semanário alemão.

“Sou culpado”

por Susanne Beyer e Bernhard Zand

Em entrevista, pela primeira vez, após receber o Prêmio Nobel de Literatura, o autor chinês Mo Yan, controvertido em virtude de suas proximidades com o regime. Ele faz autocrítica, mas antes de tudo critica seus críticos.

Mo Yan trajava um terno à la Mao em cuja lapela grudava um distintivo vermelho. Parecia um emblema do Partido Comunista, mas tratava-se apenas de seu nome. Em Estocolmo, ele proferiu uma conferência, a conferência Nobel que todos os laureados com o Nobel da Literatura, o mais importante prêmio literário do mundo, são obrigados a proferir.

Isso foi em 7 de dezembro de 2012 e o chinês — que com voz maviosa, quase cantante, proferia o seu discurso — era visto como uma decepção. Ele havia escrito livros maravilhosos, isso sim. “A Re­volução do Alho” (“Die Kno­blauchrevolution”), “Tédio” (“Ü­berdruss”), voluminosos romances de família, narrados em colorida exuberância, os quais bem poderiam ser livros de história que tratam do desenvolvimento da China nas últimas décadas, da pobreza de épocas passadas, das durezas da Revolução Cultural e da arrancada do crescimento econômico. Apesar de toda a crítica ao Partido Comunista e a seus quadros, que fica claro em seus livros, o autor é visto como um homem leal ao regime.

Mo Yan, com 58 anos, é membro do Partido Comunista (PC) desde 1979. Fez carreira no exército e é hoje vice-presidente da As­sociação dos Escritores do Partido Comunista.

Seus leitores há muito se admiram sobre essa discrepância: a inequívoca crítica em sua obra contra o Estado chinês e a adaptabilidade de suas aparições públicas. De acordo, divididas foram também as reações por oportunidade do anúncio do Prêmio Nobel. Dissidentes chineses, como o escritor Liao Yiwu, reagiram “perplexos” e escritores alemães, como Martin Walser, acentuavam que Mo, “sem qualquer dúvida, estaria acima de qualquer afetação”.

Mo Yan pessoalmente contribui pouco a fim de se esclarecer. Nega solicitações para entrevistas de todo o mundo. Na conferência de imprensa em Estocolmo, pouco antes da entrega do Prêmio, Mo Yan provocou mais um escândalo: O autor disse que a censura na China é “um mal necessário”, ao que comentaristas de todo mundo reagiram indignados.

Mo Yan nasceu em 1955, em Gaomi, no leste da China. Mo Yan é pseudônimo, seu verdadeiro nome é Guan Moye. Seus pais eram agricultores. Entre 1959 a 1961, Mo Yan passou pelo período da “Grande Fome”, resultado de uma política agrícola fracassada em virtude da qual milhões de chineses morreram de fome. Com a idade de 12 anos, Mo teve de abandonar a escola, pois sua família era vista como politicamente não confiável. Em seguida foi guardador de rebanhos e trabalhador na produção agrícola de algodão.

O narrador de seu novo romance, “Rãs”, tem fortes traços autobiográficos. Também ele, o narrador, vem de uma família de agricultores de Gaomi; também ele entra nas fileiras do exército e vacila entre adaptação e remorsos. O narrador tem uma tia que é médica ginecologista, outro detalhe autobiográfico. É ela a figura principal do romance, que implementa brutalmente a “política de um filho só”. No enredo nunca fica claro porque ela, apesar de todas as humilhações, permanece tão leal ao Partido. Quem vive em estruturas autoritárias arrisca-se muito quando procura se defender. Eis aí a mensagem dos livros de Mo Yan e esta tem muito a ver com a atual realidade chinesa.

No entanto, um laureado com o Nobel goza de certa proteção. Um laureado com o Nobel pode manifestar-se, arriscar algo. Afinal, chega até ser um dever seu.

Sr. Mo, seu pseudônimo literalmente significa “Não Fale”. Aparentemente o sr. leva isso muito a sério. Por que o sr. receia o contato com o público, especialmente com jornalistas?

Porque sinto enormes dificuldades em dar depoimentos políticos. Sou um escritor que escreve com pressa, mas sou um pensador que pensa de forma profunda. Sempre quando falo em público pergunto-me, logo a seguir, se tenho me expressado bem mesmo sabendo que minhas opiniões políticas são precisas, bem claras. Podem ser lidas em meus livros.

Seu novo livro, com o título “Rãs”, descreve as consequências da política de “um filho só” da China. Qual é a sua opinião sobre esse tema, que todavia afeta pessoalmente mais de 1 bilhão de pessoas?

Como pai penso que qualquer indivíduo deveria ter tantos filhos quantos quiser. No entanto, como oficial, eu tinha de me submeter as prescrições que eram válidas a todos os servidores do Estado: um filho e nada mais. Não é fácil resolver o problema populacional da China. No entanto, estou totalmente convencido de uma coisa: ninguém deverá ser impedido à força de querer um filho.

Mas é exatamente isso que se repete inúmeras vezes em seu romance. O que existia no início desse livro: seu posicionamento pessoal ante a política de “um filho só” ou uma cena isolada, um personagem, uma figura ou um diálogo?

O que existia era a biografia épica de uma de minhas tias com uma vida mais do que realizada, que por algumas décadas trabalhou como médica para senhoras e presenciou coisas incríveis. Eu sentia uma pressão interior em pôr em papel essas vivências.

Em seu romance, essa médica para senhoras é uma figura monstruosa, que se sente perseguida por seus atos. Como a sua tia reagiu ante ao livro?

Ela não o leu. Recomendei estritamente a ela que não o lesse. “Você vai se irritar comigo quando o leres.” Obviamente, nem tudo em “Rãs” se refere à história de minha tia. No mais, ela mesmo tem quatro filhos. Além disso, o enredo também inclui experiências de outros médicos, experiências que eu pessoalmente presenciei.

Também em seus outros livros aparecem coisas exorbitantes. Em seu romance “A Revolução do Alho”, uma mulher grávida enforca-se quando as dores do parto já se manifestavam. Mas “Rãs” é provavelmente o seu livro mais emocional, mais pesado. O sr. trabalhou dez anos nesse texto. Por quê?

Andei com esse enredo na cabeça por muitos anos e é correto que me senti oprimido, com um peso enorme, enquanto o redigia. Penso que “Rãs” é um livro autocrítico.

Não entendi. O sr. poderia explicar melhor isso? Afinal, o sr. não tem nenhuma culpa pela violência empregada nos abortos que o sr. relata.

A China, nesses últimos anos, passou por processos de transformação tão grandes que isso faz com que quase todos nós nos sintamos como vítimas. Ninguém, no entanto, se pergunta a si próprio se não se comportou como autor do crime, se não transgrediu ou violou algo ou alguém. Essa questão, essa possibilidade de pensamento, é abordada em “Rãs”. Eu, por exemplo, talvez tenha tido apenas 11 anos — mas no tempo da Revolução Cultural eu era soldado do Exército Vermelho e participei da crítica pública de meus professores. Eu sentia inveja da eficiência dos outros, de seus talentos e da sorte que tinham. E em consideração ao meu futuro eu coagi a minha mulher a um aborto. Eu sou culpado.

Suas obras descrevem um retrato amargo da China moderna. No entanto, em seus romances, nem os seus personagens, nem a sociedade e nem o próprio país parecem desenvolver-se.

No que diz respeito a esse particular, sou quase antichinês. Dramas e histórias chinesas costumam ter um final positivo. A maioria de meus livros tem um fim trágico. Mesmo assim eles falam de esperança, dignidade e força de vontade.

Seus romances podem ser lidos como filmes nos quais o sr. evita o contato visual com a psique de seus personagens. Por que, por exemplo, a médica de senhoras aferra-se acirradamente aos princípios do Partido mesmo ela sabendo das ambiguidades da credibilidade dele?

Isso faz parte da experiência espiritual de minha geração. Muitos reconheceram a Revolução Cultural como erro do Partido, mas eles reconheceram também que o Partido corrigiu esse erro.

E o sr., o que pensa acerca disso? Também o sr. teve de interromper sua educação durante a Revolução Cultural — e, mesmo assim, continua a ser membro do Partido?

O Partido tem 80 milhões de membros, um desses 80 milhões sou eu. Filiei-me ao Partido em 1978, quando prestava meu serviço militar na Armada de Libertação do Povo, e só posteriormente compreendi que a Revolução Cultural era obra de apenas alguns poucos líderes do Partido. A Revolução Cultural não tinha nada a ver diretamente com o Partido.

Em seus livros, o sr. critica radicalmente funcionários do Partido Comunista e seus trabalhos, mas em seus depoimentos políticos, também com as suas declarações aqui, o sr. está sendo bastante benigno em relação àqueles funcionários. Como é que o sr. explica essa discrepância?

Não há discrepâncias em relação à minha postura política quando critico arduamente funcionários do Partido. Nunca cansei de repetir que me sinto como escritor das pessoas e não como escritor do Partido. Detesto funcionários pú­blicos corruptos.

O escritor chinês Liao Yiwu, que no outono passado foi agraciado com o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro da Alemanha, em entrevista concedida ao “Der Spiegel”, critica o sr. como sendo um poeta do Estado e que o sr. não estaria mantendo distância com o Partido.

Confesso que li essas declarações bem como o seu discurso por oportunidade do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro. Nesse discurso, ele proclama a divisão do Estado chinês. Não posso, absolutamente, apoiar tal ideia, pois não consigo acreditar que os moradores de Sichuan [lugar de procedência de Liao – Red] queiram separar sua província do Estado chinês. Tam­bém estou convencido de que nem os pais de Liao Yiwu querem isso. Não posso nem mesmo imaginar que ele próprio, lá do fundo de seu coração, concorda com aquilo que ele disse. Eu sei que Liao tem inveja do prêmio que recebi. Eu entendo isso. Mesmo assim sua crítica à minha pessoa é injusta.

A qual crítica em particular o sr. se refere?

Ele, por exemplo, me acusa de ter louvado Bo Xilai…

Aquele ex-chefe do Partido de Chongqing que está na prisão aparentemente por corrupção…

… em uma de minhas poesias. O contrário é verdade, fui sarcástico, escrevi uma poesia satírica. Permita-me escrevê-la mais uma vez. (Mo Yan pega um bloco e começa a escrever):

Canções vermelhas entoam,
surras contra os negros magoam
O país todo olha para Chongqing.

Enquanto a aranha branca realmente tece uma teia
o cavalo preto com diarreia não é um jovem revoltoso.

Como poeta não se é nem da direita nem da esquerda.

No outono de 2011, um amigo meu de Chongqing pediu-me uma caligrafia assim como nós, entre os poetas, frequentemente as trocamos. Enviei-lhe essa poesia e ele respondeu: “Não sei se devo rir ou chorar”. Muitos nesse país, na época, louvavam o chefe do partido Bo por sua luta contra os negros, isto é, a Máfia, e pelo fato de ele permitir cantar “canções vermelhas”. Muitos autores foram solicitados a fazer o mesmo. Com “aranha branca”, eu me referi à juventude chinesa que, durante todo o dia, está na rede, isto é, na internet e realmente desmascara criminosos, os funcionários corruptos. O cavalo preto com diarreia refere-se àqueles que só louvam intelectuais. Em seguida segue uma solicitação minha a meus amigos escritores, de não se ligarem aos da direita nem aos da esquerda, mas escrever em nome do indivíduo [do homem em si — nota do tradutor).

O sr. diz que os seus críticos interpretaram essa poesia conscientemente de forma errada, a fim de colocar o sr. como amigo de Bo Xilai?

Meus adversários são, na maioria, escritores, isto é, indivíduos que também fazem poesias. Eles sabem perfeitamente que essa minha poesia é uma sátira. Mas desde que recebi o Prêmio Nobel todos olham com uma lupa sobre meus erros e invertem o sentido de minhas poesias.

Uma das principais críticas de dissidentes chineses é a de que o sr. tem contribuído para um livro no qual é glorificado o ominoso discurso de Mao Tsé-tung em Yan’an, um discurso de 1942, com o qual Mao marcava os limites dentro dos quais deveria se escrever no futuro.

Esse discurso hoje é um documento histórico que contém alguns elementos razoáveis, mas também alguns erros. Quando eu e a minha geração começamos a escrever, ampliamos e ultrapassamos gradativamente os estreitos limites que nos tinham sido impostos. Quem tem consciência e ler os meus textos daquela época não poderá afirmar que eu não tenha feito uso da crítica.

Mas por quê, afinal, o sr. contribuiu nesse livro?

Falando francamente, isso foi ideia de um editor, amigo meu de longo tempo. Ele já tinha convencido mais de cem autores e, durante uma conferência, ele andou pela sala, com um livro e uma caneta à mão, e pediu também a mim que copiasse um parágrafo do discurso de Mao. Eu perguntei: “O que devo escrever?” Ele respondeu: “Aqui, escolhi esta passagem”. Fui vaidoso demais ao fazer isso. Quis impressionar com a minha caligrafia.

Em seu romance “Tédio” (“Überdruss”) um de seus protagonistas deixa cair um emblema de Mao Tsé-tung numa latrina e em sua obra autobiográfica “Change” o sr. relata como usava estatuetas de Mao para afugentar os ratos de seu dormitório. Por que o sr. ousa tal quebra de tabu em seus livros, mas teme abordá-los em público?

O sr. acha que sou cauteloso em lugares públicos? Nesse caso, eu não deveria ter concordado com esta entrevista. Sou um escritor e não um ator. Quando redigi essas cenas jamais pensei em quebrar um tabu. Caso tenha conseguido mostrar com isso que Mao foi apenas um homem, então estou satisfeito. Quando eu era jovem, pensei que ele era Deus.

Hoje o sr. é vice-presidente da Associação Chinesa de Escritores. É possível ser isso na China sem estar próximo do Partido?

Este é um título honorífico que nunca incomodou ninguém antes de eu receber o Prêmio Nobel. Mas tem gente por aí que acha que um detentor do Prêmio Nobel fundamentalmente tem de ser oposicionista. É isso mesmo? Essa gente não se interessa sobre aquilo que afinal escrevo. Não deveria o Nobel da Literatura ser para a Literatura, sobre aquilo que alguém escreve?

Mas na China pessoas estão sendo perseguidas e encarceradas por aquilo que escrevem. O sr. não sente obrigação de usar sua distinção, seu renome, para empenhar-se a favor desses autores?

Já disse publicamente que espero que Liu Xiaobo possa recuperar a sua liberdade o quanto antes possível. Mesmo assim, imediatamente fui atacado e coagido a repetir e repetir sempre de novo as mesmas coisas sobre o mesmo assunto.

Em 2010, Liu recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Empenhar-se sempre de novo a seu favor causaria maior impressão do que uma única menção.

Esses rituais repetitivos lembram-me da Revolução Cultural. Eu falo quando quero. E quando não quero nem mesmo uma faca em minha garganta iria conseguir que eu fale.

Entre os seus críticos, encontra-se também na Alemanha o bastante conhecido artista plástico Ai Weiwei.

O que ele andou falando so­bre mim?

Também ele acusa o sr. de ser um poeta do Estado. Ele disse que o sr. “decolou” e estaria fora da realidade desse país e que, como intelectual, não apto para representar a China.

A maioria dos artistas na China não são eles artistas do Estado? Muitos detêm cargos de professores, outros escrevem para jornais do Estado. E qual o intelectual que pode afirmar de si que representa a China? Eu não posso afirmar isso! E Ai Weiwei, pode? Eu penso que a China só pode ser representada lá fora por aqueles que chafurdam com as mãos na lama e fazem o asfaltamento de nossas estradas.

O sr. não só é membro do Partido. O sr. repete, sempre de novo, que segue acreditando na utopia do comunismo. Seus livros não comprovam, peça por peça, que o comunismo não funciona? Não seria razoável despedir-se dessa utopia?

O que Marx escreveu no “Manifesto Comunista” é de grande beleza. No entanto, parece-me bastante difícil, transformar esse sonho em realidade. Por outro lado, vejo por exemplo, os países da Europa, especialmente os do Norte da Europa, Estados sociais de abastança, e pergunto-me: esses Estados, essas sociedades, são elas imagináveis sem Marx? De alguma forma, o Marxismo salvou o capitalismo, pois quem realmente tirou proveito dos benefícios dessa ideologia são essas sociedades do Ocidente. Nós, chineses, russos e demais europeus do Leste, interpretamos Marx de forma errada.

Um de seus grandes admiradores é o escritor alemão Martin Walser. Ele diz que seus livros são “orgias em exatidão, brutalidade e beleza”.

Também eu tenho grande respeito por Martin Walzer. Li todos os seus livros que foram traduzidos para o chinês. Ele é um autor que reflete muito e que nos explicou, de forma bem compreensível, a mentalidade dos alemães após a 2ª Guerra Mundial. Sinto-me honrado em saber que ele aprecia meus trabalhos. Sou de opinião de que ele é um dos autores alemães especialmente predestinados para receber o Prêmio Nobel. Günter Grass, cujos livros também aprecio, já foi laureado com o Nobel. Li também os textos de Herta Müller que foram traduzidos para o chinês e acho alguns deles excelentes.

Diferentemente do sr., Günter Grass de forma alguma tem problemas em brigar publicamente com seu governo.

Acho isso muito bom e admiro-o bem como a outros autores que têm o poder da palavra para lançar-se publicamente em tais discussões. Eu não tenho esse poder da palavra. Francamente: eu tenho medo de falar em público.

Para o sr., os procedimentos em Estocolmo devem ter sido uma tortura.

Assim foi. Durante todo o tem­po carreguei um pau de madeira em minhas mãos.