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Valor Sentimental: a força das mulheres que dizem não

Valor Sentimental: a força das mulheres que dizem não

Numa temporada particularmente fértil de filmes interessantes, dois deles se destacam por recolocar o teatro no centro da experiência contemporânea. O teatro permanece, numa era de centralidade dos meios digitais, como a arte pública por excelência. É uma matriz de formas e conflitos humanos que continuam a informar tanto a narrativa da ficção moderna quanto o próprio imaginário da psicanálise.

O primeiro destaque da temporada em 2025 é “Hamnet”, de Chloe Zhao, que reconstrói um momento da vida de William Shakespeare. Mas é “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, que concentra hoje o interesse maior. O filme articula uma narrativa de grande rigor formal, sustentada por interpretações de altíssimo nível e que já se encontra em exibição no streaming do MUBI.

Em “Valor Sentimental”, Trier opera dentro de uma linhagem que pode ser situada no interior da tradição norueguesa, naquilo que Franco Moretti definiu como “drama burguês”. Trata-se de uma forma narrativa que encontra em Henrik Ibsen (1828-1906) sua referência maior e que se distingue por deslocar o foco dos conflitos sociais mais explícitos para zonas mais interiorizadas da experiência.

Emerge, nos dramas burgueses, a imagem de uma sociedade em estágio complexo. As tensões se condensam no espaço doméstico, afetivo e psicológico. Daí a impressão de sofisticação que marca essas obras. A sombra de Ibsen é evidente, mas o filme também dialoga com a tradição do cinema escandinavo, em especial com Ingmar Bergman.

A trama de “Valor Sentimental” se ancora na relação entre o personagem Gustav e suas filhas, Nora e Agnes. Diretor de cinema consagrado, ele abandonou a família na Noruega ao se separar da esposa e passou a viver no exterior, deixando para trás as duas meninas. Anos depois, reencontramos esse núcleo já transformado pelo tempo.

Nora tornou-se uma renomada atriz de teatro, enquanto Agnes, historiadora, assume a posição quase silenciosa de guardiã da memória familiar e, em certa medida, do país. Não é irrelevante que o filme retorne, por essa via, ao motivo teatral que atravessa a obra. Podemos dizer que é um aspecto central.

Romance familiar

É a partir desse triângulo que a narrativa se organiza. O espaço decisivo é a casa da família, o lugar de lembranças que estruturam tanto as histórias pessoais quanto uma história nacional mais ampla insinuada pelo filme. O retorno de Gustav à Noruega ocorre sob o pretexto de realizar o grande filme de sua vida, um projeto assumidamente autobiográfico, centrado sobretudo no suicídio de sua mãe. Para isso, ele imagina que a filha Nora seria a única intérprete possível para encarnar a própria avó.

Nesse ponto, a engrenagem dramática se revela com nitidez. A operação concebida por Gustav encena aquilo que Freud chamou de “romance familiar”. São as fantasias em que filhos reinventam a biografia dos pais e reorganizam imagens e afetos. Aqui, porém, o movimento se inverte. O pai que abandonou a filha retorna para convocá-la a representar a mãe dele. O gesto reabre feridas e reinscreve, no plano da ficção, as consequências de uma ruptura antiga.

A presença da psicanálise não é apenas acidental. Logo sabemos que a mãe de Nora e Agnes era terapeuta, o que adensa essa atmosfera de herança psíquica que atravessa a família. Mas o verdadeiro ponto de inflexão do filme é que Nora recusa o papel no filme do pai. Surge então uma dimensão decisiva da narrativa: a sucessão de mulheres que dizem “não” à figura de Gustav.

As recusas tornam-se pontos de virada do filme. Nora é a primeira a dizer “não”. Agnes, no passado, já havia trabalhado em um filme do pai e depois se afastara de novos projetos. Mais adiante, entra em cena Rachel, a atriz de grande projeção internacional, convocada por Gustav como possível substituta. Ela também tensiona esse mecanismo de controle.

O efeito é claro. Em uma arte profundamente industrial como o cinema, a figura do diretor costuma concentrar o ponto máximo de comando. Trier desloca esse eixo ao cercar Gustav por negativas sucessivas que fraturam sua autoridade. O que sobressai é o retrato de uma masculinidade habituada ao controle e confrontada por uma cadeia de recusas femininas que desestabiliza seu projeto.

Nesse movimento reside um dos achados mais agudos de “Valor Sentimental”: a exposição de uma figura masculina estruturalmente dominante diante de mulheres que se recusam a ocupar o lugar que lhes foi previamente escrito. É dessa fricção que o filme extrai boa parte de sua grande força dramática.

Indústria do cinema

Valor Sentimental
Joachim Trier transforma o reencontro de um pai com as filhas em um drama sobre memória, controle e recusa

A relação entre as irmãs Nora e Agnes constitui outro ponto alto de “Valor Sentimental”. Aqui, a filiação estética se torna ainda mais visível e remete a obras de grande densidade, como “Persona” (1966), de Ingmar Bergman. Também ali estamos diante de duas mulheres cuja proximidade é atravessada por fissuras, como a marca do abandono familiar. A aproximação não é gratuita. Em ambas as obras, o vínculo entre as personagens femininas carrega traumas privados e tensões mais amplas.

Essa camada de influência se articula diretamente à figura de Gustav. Ao construir esse diretor de cinema renomado mundialmente, Joachim Trier introduz no filme uma reflexão clara sobre a indústria da cultura. Não se trata apenas de um drama íntimo. À medida que as mulheres dizem “não” a Gustav, ele passa também a receber recusas vindas do próprio sistema que deveria sustentar seu projeto.

Isso se torna particularmente visível na interferência da plataforma de streaming que, no interior do filme, tenta impor exigências sobre a obra profundamente pessoal que Gustav pretende realizar. Forma-se então um duplo deslocamento. O diretor perde o controle tanto sobre suas atrizes quanto sobre as condições materiais de financiamento. O filme explicita, assim, as engrenagens da indústria cultural e os limites da autoridade autoral.

A dimensão pública e social ganha ainda um novo adensamento com a entrada do tempo histórico. A narrativa incorpora a biografia da mãe de Gustav e a resistência dos noruegueses ao nazismo. A história de um país invade a história familiar. Mais uma vez, a aproximação com Bergman se impõe. Em “Persona”, a memória da Segunda Guerra Mundial e a presença da Guerra do Vietnã irrompem brevemente, mas de modo decisivo, no interior do drama das personagens.

Em “Valor Sentimental”, o romance familiar não permanece fechado sobre si mesmo. Ele é assim atravessado pela pressão da história e pelas tensões da sociedade. O resultado é uma construção narrativa extremamente bem tecida, que articula o plano íntimo e o histórico.

O desfecho do filme pode provocar reservas. Depois de acompanhar um conjunto de conflitos densos e cuidadosamente encenados, o espectador se depara com uma solução conciliatória. Os enfrentamentos que se acumulavam tendem a uma acomodação final. Trata-se, evidentemente, de uma opção de Trier, uma escolha que pode ser questionada, mas que também convida à reflexão sobre o sentido último dessas tensões.

Apesar dessa ressalva, a percepção é de uma obra de alta sofisticação formal e temática. “Valor Sentimental” se insere com destaque em uma safra particularmente rica do cinema recente, marcada por filmes que têm enfrentado temas duros e historicamente carregados.