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Ettore Scola no Prime Video: 8 décadas de vida em um apartamento — e um soco emocional Divulgação / América Vídeo

Ettore Scola no Prime Video: 8 décadas de vida em um apartamento — e um soco emocional

As lembranças podem ser alívio ou tormento. O avançar dos anos não é capaz de extinguir por completo tudo o que vivemos, e quando menos se espera um perfume qualquer evola-se do baú de ossos de cada um, convidando a uma reflexão às vezes doída, mas urgente. Em “A Família”, o passado está para o presente como a política para as relações privadas, ou seja, movem-se em paralelo, mas bem próximos, quase se chocando, fluindo sem muita disciplina, mas certos de onde irão chegar. Mestre nessa arte, Ettore Scola (1931-2016) faz uma elegia aos afetos e suas contradições, num torvelinho de sentimentos que não se restringe ao palpável. São necessárias oito décadas para que se entenda o que têm em comum pessoas tão diferentes, e ao final a resposta é muito clara.

A perfeição está nos detalhes 

A família do título, sem nome, mora num espaçoso apartamento na Via Scipione l’Emiliano, em Roma. Conhecemos suas tantas minudências por meio de Carlo, um garoto de sete anos que parece nunca ter saído do imóvel e que parece ter sido sempre feliz assim. Poder-se-ia dizer até que ele jamais deixa de ser aquele menino, mas Scola e os roteiristas Graziano Diana, Ruggero Maccari (1919-1989) e Furio Scarpelli (1919-2010) têm outros planos. Brincadeiras com o irmão, Giulio, e o primo, Enrico, cedem lugar a um luto resignado quando morre o avô que lhe empresta o nome, a fronteira mais nítida entre a leveza da infância e as ubíquas aflições dos adultos. O diretor pontua a melancolia que define os laços entre todos eles mostrando Aristide, o pai, como um alto burocrata que queria ser pintor, e mãe, uma cantora de ópera que abandonara a carreira pelo casamento. Embora ele nunca perceba, essas duas figuras influenciam a visão de Carlo acerca do papel que deve cumprir junto aos outros, uma das razões de sua invencível amargura.

Um toque de Tchekhov

Carlo está apaixonado por Adriana, mas casa-se com Beatrice. Até aí, nada de propriamente original, a não ser pelo modo como Scola vai conduzindo as resoluções e a desídia de seu personagem central. A edição de Francesco Malvestito dá a impressão de que cada gesto de Carlo é acompanhado de muito perto, bem como suas palavras, sempre num tom grave. O filme descola-se um tanto do propósito inicial ao documentar o amor impossível entre Carlo e Adriana, sem deixar de ter Tchekhov na mira. Se até aqui a debacle moral da família lembrava “O Jardim das Cerejeiras” (1903), a história passa a “A Gaivota” (1895), esmiuçando o labirinto em que Carlo e Adriana se acostumaram a viver, e do qual não sairão mais. Lendas do cinema europeu, Vittorio Gassman (1922-2000) e Fanny Ardant conferem ao anticasal a aura de amantes malditos dos romances épicos, numa delicada mistura do sublime com o abjeto.

Filme: A Família 
Diretor: Ettore Scola
Ano: 1987
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.