A pior sensação da infância é perceber que a pessoa que deveria te proteger talvez não seja quem você pensa. “Boa Noite, Mamãe”, dirigido por Matt Sobel, parte exatamente desse medo básico e constrói um suspense sufocante dentro de uma casa isolada no meio do nada. Naomi Watts interpreta a mãe que retorna após uma cirurgia estética com o rosto coberto por faixas, enquanto os gêmeos Elias e Lukas, vividos por Cameron Crovetti e Nicholas Crovetti, tentam entender se aquela mulher rígida e distante é realmente a mãe que conheciam.
A premissa é simples e perturbadora. A mãe chega à casa de campo cercada por milharais e bosque, impõe silêncio, estabelece regras duras e evita contato com o mundo exterior. As faixas no rosto, justificadas pela cirurgia, criam uma barreira física e emocional. Elias começa a desconfiar. Ele testa lembranças, observa detalhes, faz perguntas. Lukas oscila entre apoiar o irmão e tentar manter a paz. Cada conversa vira um pequeno interrogatório doméstico. Cada resposta evasiva amplia a dúvida.
O isolamento pesa. Não há vizinhos por perto, não há testemunhas, não há uma autoridade que valide o que está acontecendo. A mãe controla horários, circulação pela casa, uso do telefone. A rotina vira instrumento de poder. Naomi Watts trabalha essa ambiguidade com frieza calculada: ora parece apenas uma mulher cansada se recuperando de um procedimento médico, ora assume uma postura dura que alimenta a suspeita. Ela não exagera, e justamente por isso a tensão cresce.
Cameron Crovetti conduz Elias com determinação quase obsessiva. Ele observa, confronta, insiste. Nicholas Crovetti faz de Lukas um contraponto mais vulnerável, alguém que teme as consequências de ir longe demais. A dinâmica entre os irmãos sustenta o filme. Não é só uma história sobre identidade; é também sobre lealdade e sobre o que acontece quando duas crianças percebem que podem estar sozinhas numa situação perigosa.
O terror aqui não depende de sustos fáceis. Ele nasce da desconfiança contínua. Matt Sobel mantém a câmera próxima dos rostos, corta antes das respostas definitivas e prolonga o desconforto. A casa ampla vira um labirinto emocional, onde portas fechadas e corredores silenciosos têm mais peso do que qualquer grito. O suspense funciona porque a dúvida é plausível o tempo todo.
Dá para dizer que “Boa Noite, Mamãe” é menos sobre descobrir uma verdade objetiva e mais sobre acompanhar o desgaste dessa convivência. Cada decisão tomada dentro daquela casa altera o equilíbrio de poder entre mãe e filhos. E quando a confiança desaparece, até o gesto mais simples ganha um peso enorme. É um filme que incomoda pelo que sugere e pelo que deixa no ar, e termina com a sensação de que a maior ameaça pode estar bem diante dos olhos ou escondida atrás de uma camada de gaze.
★★★★★★★★★★



