O mal aqui não chega como metáfora nem como susto passageiro; ele bate à porta, exige decisão imediata e cobra caro por qualquer hesitação. Em “O Mal que nos Habita”, o diretor Demián Rugna coloca dois irmãos no centro de um pesadelo rural que começa com um corpo mutilado encontrado perto da própria fazenda e rapidamente se transforma numa corrida contra o tempo para impedir que algo muito pior venha ao mundo. Pedro, vivido por Ezequiel Rodríguez, é o primeiro a entender que aquilo não é um crime comum. Jimi, interpretado por Demián Salomón, hesita, questiona, tenta ganhar alguns minutos de racionalidade antes de agir. Só que o relógio não está do lado deles.
O ponto alto do filme é justamente nessa sensação de urgência concreta. Não se trata de investigar pistas sofisticadas ou esperar que alguma autoridade resolva o problema. O que existe é uma comunidade isolada, poucas opções práticas e regras locais sobre como lidar com um “infectado”. Quando descobrem que o homem encontrado pode estar possuído e prestes a dar à luz uma entidade demoníaca, a discussão deixa de ser teórica. É preciso remover o corpo? Isolar a área? Fugir? Cada escolha fecha uma porta e abre outra ainda mais perigosa.
Ezequiel Rodríguez constrói um Pedro tenso, sempre à beira de perder o controle, mas consciente de que alguém precisa assumir a liderança. Já Jimi, de Demián Salomón, funciona como contraponto mais emocional, dividido entre proteger os seus e duvidar das soluções improvisadas. Silvina Sabater, como uma das vozes ativas da comunidade, traz pragmatismo e confronta decisões precipitadas, lembrando que agir errado pode acelerar o desastre. Não há heróis confortáveis aqui, apenas gente comum tentando sobreviver a algo que escapa completamente à lógica.
Rugna filma o interior argentino como um território vulnerável, onde a distância das grandes cidades significa também distância de ajuda. A sensação é de isolamento real: estradas de terra, vizinhos desconfiados, comunicação precária. O mal avança nesse vazio institucional. Quando os irmãos tentam buscar apoio, encontram burocracia, descrédito ou simplesmente medo. Isso empurra a responsabilidade de volta para eles, e o peso dessa responsabilidade é quase físico.
O terror do filme não depende apenas de sustos, mas da ideia perturbadora de que existem regras específicas para lidar com o sobrenatural, e que quebrá-las tem consequências imediatas. Pedro toma decisões movido pela pressa e pela necessidade de proteger a família, mas cada movimento parece aproximá-lo de um ponto sem retorno. O espectador sente essa pressão porque Rugna evita explicações excessivas e mantém a ameaça sempre próxima, mesmo quando não está visível.
“O Mal que nos Habita” incomoda porque coloca personagens falhos diante de um problema absoluto e observa o que acontece quando a fé popular, o medo e o instinto de sobrevivência entram em choque. É um terror seco, direto, que aposta menos em espetáculo e mais em consequência. Quando o filme termina, fica a impressão de que o verdadeiro horror não é apenas a presença do demônio, mas o momento exato em que alguém percebe que qualquer decisão, inclusive a mais bem-intencionada, pode ser tarde demais.
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