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Guarde os boletos e desligue o cérebro: uma das melhores comédias dos anos 2000 acaba de chegar à Netflix Divulgação / Columbia Pictures

Guarde os boletos e desligue o cérebro: uma das melhores comédias dos anos 2000 acaba de chegar à Netflix

“A Verdade Nua e Crua” acompanha Abby Richter (Katherine Heigl), uma produtora de televisão organizada, exigente e convicta de que controle e planejamento são a base de qualquer sucesso profissional. Ela comanda um programa matinal com mão firme, mas vê tudo balançar quando a audiência começa a cair e a chefia decide intervir. A solução vem de cima: contratar Mike Chadway (Gerard Butler), um apresentador de outro canal, conhecido por comentários grosseiros, opiniões simplistas e um discurso direto sobre o que os homens “realmente” querem das mulheres.

A entrada de Mike muda completamente o clima da redação. Ele chega ocupando espaço, falando alto, provocando reações imediatas e conquistando público com facilidade. Abby, que sempre decidiu pauta, tom e ritmo do programa, se vê obrigada a dividir território com alguém que despreza exatamente os valores que ela defende. O conflito é prático e visível: ela precisa manter o programa funcionando e os números subindo, mesmo perdendo parte do controle que a definia como profissional.

O choque entre os dois é o motor da comédia. Abby tenta enquadrar Mike no formato do programa, enquanto ele faz questão de expor o que pensa, mesmo que isso a deixe desconfortável diante da equipe e das câmeras. A audiência responde, o chefe sustenta a aposta e Abby passa a negociar cada pequeno espaço que ainda consegue preservar. Nada ali é abstrato: cada fala no ar tem impacto, cada decisão mexe na hierarquia do estúdio.

Fora do ambiente profissional, a situação se complica quando a vida amorosa de Abby entra em crise. De forma quase contraditória, ela decide recorrer justamente a Mike para pedir conselhos, usando os mesmos métodos que ele vende no programa. A ideia é simples: se funciona na teoria, talvez funcione na prática. O problema é que Mike não separa muito bem o que é privado do que pode virar espetáculo, e Abby acaba se expondo mais do que gostaria.

É nesse ponto que o filme encontra seu humor mais eficiente. Abby tenta aplicar regras rígidas a situações imprevisíveis, enquanto Mike observa, comenta e reforça sua posição de “especialista”. Cada tentativa gera consequências imediatas: constrangimento, comentários atravessados, olhares curiosos no trabalho. A graça está menos nas piadas e mais na maneira como essas experiências começam a bagunçar certezas que ambos tinham como inquestionáveis.

Mesmo assim, “A Verdade Nua e Crua” nunca abandona o conflito profissional. Abby segue tentando recuperar autoridade, ajustando quadros, negociando limites e testando até onde pode ir sem colocar o emprego em risco. Mike, por sua vez, recua quando convém, mas sempre atento ao que mantém sua relevância no ar. A relação entre eles se constrói nessa troca constante, feita de pequenas concessões e disputas silenciosas.

Dirigido por Robert Luketic, o filme aposta em um ritmo ágil e em situações reconhecíveis para sustentar a narrativa. Não há grandes surpresas, mas há clareza sobre o que está em jogo: audiência, poder, imagem pública e o preço de misturar vida pessoal com um ambiente que transforma tudo em conteúdo. Katherine Heigl sustenta bem a tensão entre controle e vulnerabilidade, enquanto Gerard Butler explora o carisma bruto de um personagem que provoca mais pelo tom do que pela profundidade.

“A Verdade Nua e Crua” funciona quando observa seus personagens lidando com escolhas práticas e consequências imediatas, sem tentar parecer mais profundo do que é. O filme entende que, naquele estúdio, nada é permanente: tudo depende do próximo programa, do próximo número e de quem consegue permanecer no centro das atenções.

Filme: A Verdade Nua e Crua
Diretor: Robert Luketic
Ano: 2090
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.