“Morte na Alma” começa com uma confissão que não vem acompanhada de defesa nem de pedido. Um pai, Marc Lagnier, admite ter matado o filho adolescente e encerra a fala ali. Não discute, não negocia, não oferece contexto. A sessão segue, mas o silêncio aumenta: perguntas chegam e voltam sem resposta, e os minutos se acumulam no espaço entre uma frase e outra.
A partir desse ponto, Xavier Durringer fica com o que dá para ouvir e com o que não chega a ser dito. “Morte na Alma” não corre para fechar as lacunas. Ele repete a dinâmica do tribunal: alguém pergunta, alguém insiste, e o réu recusa. Isso muda o jeito de acompanhar. A história anda devagar, e cada pausa cobra atenção quando a mesma pergunta volta pela terceira, quarta vez.
Sala de audiência e pausas
O caso cai nas mãos de Tristan Delmas, advogado jovem e ambicioso. Hugo Becker dá a Tristan o ritmo de quem quer resolver rápido: ele tenta organizar uma linha de defesa, procura contradições, volta ao réu, muda o tom, tenta de novo. Só que o cliente não colabora. Em vez de embate verbal, aparece um profissional preso a procedimentos que exigem fala e recebendo silêncio como resposta. O trabalho vira rotina: preparar audiência, voltar ao tribunal, sustentar perguntas sem material, insistir quando já seria mais fácil parar.
A recusa de Marc em explicar o que aconteceu empurra Tristan para fora da sala de audiência. A busca por elementos do passado dos Lagnier entra como tarefa extra, feita no intervalo de prazos e compromissos. O filme acompanha esse movimento sem transformar a apuração em espetáculo. Não há fila de “pistas” em ritmo de quebra-cabeça. O que aparece é um advogado que perde horas tentando arrancar uma frase útil e, sem isso, tenta entender por conta própria o que o cliente não diz.
Quando a história encosta no mundo privado da família, a reação não traz alívio. Valérie, a esposa de Marc, responde à tragédia com uma frieza que endurece ainda mais as conversas. Isabelle Renauld segura essa dureza sem catarse, e cada encontro fica mais curto e mais difícil de sustentar. Pauline, a filha, surge como presença marcada por uma verdade que ninguém põe na mesa. Para Tristan, isso vira rotina de tentativa: depoimentos que não avançam, convivência em que a informação não circula, e a sensação de que a próxima conversa vai gastar mais tempo do que ele tem.
Durringer mantém o espectador dentro desse mesmo impasse. Perguntas não rendem, silêncios voltam, e a duração de cada troca se mede mais pelo tempo que passa do que pelo conteúdo. Em vez de entregar explicações em bloco, o filme retorna ao tribunal, volta a conversas curtas em ambientes fechados e deixa a pausa ocupar a cena. Há momentos em que uma frase simples faria tudo andar, mas a frase não vem. A atenção muda de lugar: quando ninguém entrega o mínimo, a sequência cobra paciência e cobra foco.
Tribunal, casa e escritório
A recusa de reviravoltas e de “efeitos” também aparece na forma como a informação entra. Quando surgem segredos familiares, eles não chegam com anúncio. Eles aparecem como dados que Tristan precisa carregar sozinho, com cuidado, porque a família não oferece terreno estável para conversa. Para quem assiste, isso troca excitação por acompanhamento: lembrar uma frase antiga, notar o que muda de uma audiência para outra, segurar um detalhe enquanto o resto continua em silêncio.
O filme se apoia em espaços recorrentes e tarefas repetidas: tribunal, encontros formais, retornos a perguntas antigas, idas e vindas que ocupam dia e energia. Casas, escritórios e salas de audiência entram como lugares onde as pessoas se sentam, esperam e medem cada palavra. Não há fuga para fora disso. A história insiste na convivência com as lacunas e pede tempo, porque o drama não se resolve por impulso; ele avança na rotina de quem precisa trabalhar com o que falta.
A presença de uma conexão perturbadora com uma série de assassinatos não solucionados amplia o tamanho do problema, sem mudar o comportamento básico das cenas. Tristan continua diante de um cliente que se cala, e o processo continua dependendo do que não chega. Quando o caso se complica, a falta de explicação vira obstáculo prático: escolher o que perguntar, decidir quando insistir, voltar ao tribunal com respostas curtas e os mesmos buracos.
Em termos de atuação, o contraste entre a pressa de Tristan e o bloqueio dos Lagnier segura o interesse ao longo do tempo. Becker trabalha na linha da persistência — volta, insiste, recomeça —, enquanto Renauld mantém o corpo fechado e a fala controlada. Flore Bonaventura, como Pauline, aparece nessa contenção, com a presença pesando pelo que não é dito e pelo tempo que o silêncio ocupa na sala. As cenas seguem num ritmo de insistência e recusa: cada conversa exige esforço, e quase nenhuma entrega o que se espera dela.
“Morte na Alma” termina sem aliviar a experiência com uma explicação fácil. A inquietação vem do acúmulo de audiências e encontros em que a palavra não chega. Quando os créditos sobem, a pergunta ainda está no ar — e a sala continua esperando.
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