Em “De Olhos Bem Fechados”, Stanley Kubrick acompanha um casamento que parecia sólido até o instante em que uma conversa íntima muda tudo. Bill Harford (Tom Cruise) é um médico bem-sucedido, confortável na própria rotina, casado com Alice (Nicole Kidman), uma curadora de arte que aparenta estar igualmente segura do lugar que ocupa. A estabilidade dos dois, porém, desmorona quando Alice confessa um desejo antigo que Bill nunca imaginou ouvir. A partir dali, o filme deixa claro que não se trata de ciúme banal, mas de uma ferida aberta que ele não sabe como fechar.
Incapaz de lidar com o impacto da revelação, Bill sai de casa e passa a vagar por Nova York como alguém tentando provar algo para si mesmo. Tom Cruise constrói esse deslocamento com um misto de arrogância e fragilidade: Bill parece confiante em cada decisão, mas suas atitudes revelam um homem desnorteado, reagindo mais do que escolhendo. Cada encontro noturno surge como uma promessa de controle, mas também como um teste silencioso que ele não domina totalmente.
Essas interações, aparentemente casuais, empurram Bill para situações cada vez mais desconfortáveis. Kubrick organiza o suspense não com sustos ou explicações, mas com regras implícitas, silêncios e portas que só se abrem para quem aceita jogar conforme o combinado. Bill aceita essas condições sem entender completamente o custo, movido por uma mistura de curiosidade, orgulho ferido e necessidade de reafirmação. O filme observa esse processo com frieza, deixando claro que cada avanço cobra um preço.
Quando Bill se vê envolvido em um ambiente onde tudo funciona por códigos rígidos e anonimato, a sensação de poder rapidamente se transforma em vulnerabilidade. Ele percebe que não controla nada ali, apenas ocupa um espaço provisório que pode ser retirado a qualquer momento. Kubrick estica o tempo dessas cenas, alonga o desconforto e faz o espectador sentir o mesmo estranhamento que o personagem, sem nunca explicar demais.
Ao retornar à rotina, Bill tenta agir como se nada tivesse acontecido. Mas o que ele viveu não se arquiva com facilidade. As consequências aparecem de forma prática: relações mudam de tom, gestos ganham peso e o silêncio passa a ser uma estratégia tão importante quanto a palavra. Tom Cruise sustenta bem esse homem que tenta recuperar o chão enquanto finge normalidade.
Alice, por sua vez, não é apenas o gatilho do conflito. Nicole Kidman entrega uma personagem lúcida, direta e desconcertante, que se recusa a suavizar o que sente para proteger o ego do marido. Quando os dois finalmente se encaram, o embate não é sobre fantasias específicas, mas sobre poder, controle e honestidade dentro de um casamento que já não é o mesmo.
“De Olhos Bem Fechados” é um suspense que prefere o incômodo à explicação, e isso pode frustrar quem espera respostas claras. Kubrick aposta na observação fria das escolhas e nos efeitos que elas produzem, especialmente quando o desejo entra em conflito com a imagem que alguém faz de si. O resultado é um filme provocador, elegante e desconfortável, que termina menos interessado em resolver tudo do que em mostrar o que muda quando certas verdades finalmente vêm à tona.
★★★★★★★★★★



