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Um namoro que precisa ser renegociado toda manhã — esse filme está na Netflix Divulgação / Netflix

Um namoro que precisa ser renegociado toda manhã — esse filme está na Netflix

“Se Esse Amor Desaparecesse Hoje” chega com uma premissa que força o espectador a seguir uma regra básica. Se Han Seo-yun não leva o dia anterior para o dia seguinte, cada passo vira recomeço e cada conversa vira tentativa de não desperdiçar tempo e energia. O longa é sul-coreano, dirigido por Kim Hye-young, e está na Netflix.

A história acompanha Seo-yun no ensino médio, vivendo com amnésia anterógrada — ela acorda e não consegue se lembrar do que viveu antes — até começar a namorar Kim Jae-won. Esse namoro já nasce com atraso embutido: quando um lado se reinicia, o outro precisa decidir, naquele dia, se repete, se corrige, se finge normalidade ou se interrompe tudo para explicar de novo. Ao mesmo tempo, o rapaz guarda um segredo, e a narrativa encosta muitas situações nesse desnível de informação. A pergunta volta sempre: o que se conta agora e o que se empurra para amanhã?

O relógio da repetição

Durante a sessão, o romance não anda por grandes declarações; ele anda por tarefas pequenas que se acumulam na tela, uma após a outra. É preciso insistir, voltar ao mesmo ponto, reabrir o assunto quando já parecia resolvido e aceitar que a reação do dia anterior não está disponível como apoio. Para quem assiste, isso muda a sensação de avanço: várias passagens repetem o recomeço sem entregar a gratificação imediata de “agora foi”. Em alguns trechos, essa repetição alonga minutos; em outros, coloca diante do espectador o trabalho que um casal costuma esconder quando a história pula direto para o próximo estágio.

Shin Si-ah, como Han Seo-yun, segura a parte mais ingrata desse arranjo a cada retorno. Ela precisa entrar e reentrar na mesma relação sem transformar o recomeço em caricatura de confusão. O desempenho melhora quando troca a oscilação fácil por escolhas que cabem no dia. Em vez de encenar desorientação sem pausa, ela marca momentos em que decide seguir adiante, mesmo sem a segurança de quem já viveu aquilo ontem. O corpo reage antes da fala, e isso impede que a condição vire só um truque de roteiro. Quando o filme encurta a cena e corta a explicação, é nela que aparece a fadiga de ter de começar de novo depois.

Essa condição também cria um problema de coordenação que o longa explora sem levantar a voz, dia após dia. Se a protagonista não guarda o que aconteceu, o relacionamento exige outro tipo de cuidado, quase de manutenção diária. A história não depende de nomes de lugares nem de uma sequência de “grandes momentos”; ela depende do que acontece quando alguém precisa se orientar no presente sem o amparo do dia anterior. Para o espectador, isso vira uma medida de paciência e de atenção ao que se repete. Às vezes, a repetição ajuda a entender por que certas frases são evitadas. Em outras, a insistência prolonga a mesma situação, e a cena passa mais tempo do que precisava para chegar ao ponto.

Choo Young-woo, como Kim Jae-won, trabalha num registro de contenção que aparece com clareza no tempo de cada diálogo. Ele contracena como alguém que mede frase por frase, não por delicadeza genérica, mas por cálculo de amanhã: o que ele diz hoje pode precisar ser dito de novo no dia seguinte. O filme deixa esse esforço aparecer no modo como ele interrompe, retoma e escolhe o silêncio. Quando a situação pede cuidado, essa economia mantém a cena no lugar e evita melodrama. Quando o roteiro tenta acelerar, a mesma contenção vira trava, e o espectador sente a informação sendo segurada por tempo demais.

A conversa refeita amanhã

O segredo que Jae-won carrega anda junto do esquecimento e cria uma distância fixa no dia a dia. Enquanto a amnésia produz recomeços, o segredo delimita uma área que ele evita, e a história gira em torno desse limite. A pergunta não vem como explicação; ela aparece no gesto repetido: escolha de assunto, recuo, troca de tom, frase que para no meio. O filme acerta quando mantém isso no plano do comportamento, de um dia para o outro. Ele perde fôlego quando dá muitas voltas em torno do que não é dito, porque a espera deixa de parecer parte do namoro e vira apenas atraso na entrega de informação.

É difícil não lembrar de “Como Se Fosse a Primeira Vez” (2004, Peter Segal), mas a semelhança fica na superfície do recomeço diário. Aqui, o cotidiano escolar e o namoro não viram plataforma para gag nem para uma sequência veloz de reconquista. O que entra no lugar é uma série de tentativas que variam pouco. Essa escolha pesa direto no tempo da sessão: o filme pede disponibilidade para observar variações pequenas e, em alguns momentos, não oferece um contrapeso quando repete a mesma situação com poucos dados novos.

Quando a direção encurta as cenas e corta antes da ênfase, o filme anda melhor e deixa que a relação se complete por lacunas. Quando alonga as pausas e insiste na mesma batida, a sessão cobra atenção extra. Aí o recomeço deixa de parecer descoberta e vira procedimento. Não é defeito automático; é uma decisão que precisa de medida no relógio do próprio filme. Em várias passagens, a medida aparece: a cena entra, cumpre a função e passa adiante. Em outras, a premissa é chamada de novo para sustentar minutos que já estão claros, e o espectador percebe o alongamento antes de sentir a próxima mudança de comportamento.

O elenco de apoio inclui Jo Yoo-jung, e a presença dela ajuda a tirar o romance do isolamento, no dia a dia. Personagens ao redor pedem resposta, cobram convivência e empurram a agenda escolar para a frente. A protagonista, por sua vez, não consegue responder com base no que aconteceu ontem. O filme melhora quando deixa essa cobrança operar em ações simples, sem transformar tudo em conversa explicativa. Quando tenta justificar demais, a cena perde a secura que a própria regra do esquecimento já entrega.

A parte mais forte de “Se Esse Amor Desaparecesse Hoje” está no que ele obriga seus personagens a fazerem em tempo real, a cada dia. Eles decidem se repetem, se aceitam a repetição, se poupam o outro de uma informação ou se empurram a relação para a próxima etapa sem garantia de continuidade. Isso coloca o romance no terreno do trabalho diário, não do discurso. O filme cansa quando confunde repetição com permanência e alonga a mesma volta. Ele volta a acertar quando retorna ao básico — uma frase refeita, um silêncio mantido, um combinado retomado — e encerra no gesto de refazer, como se a conversa fosse sempre para amanhã.

Filme: Se Esse Amor Desaparecesse Hoje
Diretor: Kim Hye-young
Ano: 2025
Gênero: Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★