Não é novidade que as mulheres têm sido as donas do mundo. Elas se mostram cada vez mais capazes de uma liderança natural, e vão assim urdindo suas estratégias, chegando mais longe, fazendo as conquistas de que os homens as alijaram desde o princípio dos tempos, sem medo e sem pedir licença. Como nem tudo são rosas no jardim, ao passo que ganharam asas, as mulheres tornaram-se inalcançáveis para certos homens, para a maioria deles, congelados nas mesmas velhas opiniões, nos mesmos velhos preconceitos, naquela mediocridade de quem acha que já subiu o mais alto que podia e fazem de tudo para não despencar. James L. Brooks conhece essas mulheres. Um dos diretores mais prolíficos do cinema, Brooks continua tentando desvendar a alma feminina em “Imperfeitamente Perfeita”, a história de uma mulher sonhadora, quiçá ingênua, às voltas com enroscos familiares ao passo que vive seu apogeu profissional. Sem hesitação e com os diálogos jocosos e inteligentes que caracterizam seu texto, o diretor-roteirista deposita sobre Ella McCay uma vontade de reafirmar sua crença na natureza humana, esboçando ainda comentários acerca dos expedientes repulsivos que se escondem nos círculos do poder. Ella orbita esses dois universos.
Política e comportamento
“Imperfeitamente Perfeita” corre no já distante 2008, quando a polarização ideológica, um fenômeno transnacional, estava apenas no ovo. Ella leva sua vida quase monacal, sempre dedicada ao trabalho, despachando no gabinete de vice-governadora de um estado com tendências majoritariamente progressistas. Aos 34 anos, ela é a esperança de renovação de um quadro de autoridades caquéticas, permanentemente divorciadas das urgências do povo, e pode ter sua grande chance com a afastamento do titular, Bill Moore, que vai para um ministério. Uma conversa entre os dois, durante a qual Bill manifesta sua suspeita para com agentes públicos honestos demais, dá uma pista de aonde Brooks quer chegar e que meandros de sua protagonista quer discutir, ligando-os às pessoas que cercam Ella, nas esferas oficiais e na intimidade. Estelle, a secretária vivida por Julie Kavner, é a atenta narradora do filme, e por sua voz grave o espectador vê Ella adolescente, no último ano do ensino médio, lidando com mais uma crise conjugal dos pais e o isolamento de Casey, o caçula. Parte do que acontece em sua trajetória de governadora principia aí, e o diretor sabe dispor de Woody Harrelson e Rebecca Hall para destacar a agonia da garota. Mas uma outra figura é decisiva.
Transformações impetuosas
Eddie e Claire, os pais de Ella, mudam-se de cidade para que ele tente um novo recomeço — depois de ser demitido por manter casos com várias colegas —, Casey vai para o internato de um colégio militar e Ella fica, morando com a tia Helen, para concluir a escola e frequentar a universidade. Nesse momento, o enredo ganha outra dinâmica, graças à afinidade entre Emma Mackey e Jamie Lee Curtis. A influência de Helen na formação da sobrinha é um ponto que vai e volta no decorrer dos 115 minutos, e a tia é decerto um apoio indispensável nas horas em que Ella tem de bater à porta de Casey para averiguar sua saúde mental ou quando precisa lidar com um falso escândalo de mau uso de uma das dependências do Capitólio. Mackey lembra um pouco Carol Connelly, a mãe solo de Helen Hunt em “Melhor É Impossível” (1997), e talvez esteja em seu caminho para um Oscar. “Imperfeitamente Perfeita” é uma prova de que, sim, ela pode.
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