“Trapaça” acompanha Irving Rosenfeld (Christian Bale), um golpista de médio porte que vive de pequenas fraudes bem ensaiadas e acordos feitos no limite do aceitável. Ele trabalha ao lado de Sydney Prosser (Amy Adams), parceira nos negócios e no afeto, alguém que entende que, nesse jogo, identidade também é ferramenta. A rotina dos dois funciona até o momento em que o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) aparece e muda as regras: colaborar deixa de ser escolha e vira condição para continuar livre.
A partir daí, o filme se organiza como uma sucessão de negociações mal resolvidas. Irving tenta proteger o que construiu, Sydney luta para não virar peça descartável e Richie aposta alto demais na própria ambição. Nada acontece por acaso: cada encontro, cada promessa e cada silêncio tem um preço claro. O charme do filme está em mostrar como essas pessoas avançam sempre um passo além do seguro, acreditando que ainda têm controle da situação, quando na verdade estão apenas adiando a próxima cobrança.
Jeremy Renner surge como Carmine Polito, um político local carismático e pragmático, que vê nessas alianças uma chance de ganhar espaço e entregar resultados. Ele não parece vilão nem ingênuo, apenas alguém disposto a apostar em acordos arriscados para recuperar prestígio. A presença dele amplia o alcance do esquema e deixa tudo mais exposto, porque, quanto mais alto o contato, menor a margem para erro. O jogo deixa de ser íntimo e passa a envolver poder real.
Jennifer Lawrence entra como Rosalyn, esposa de Irving, e funciona como um elemento imprevisível que bagunça qualquer tentativa de organização. Rosalyn fala demais, aparece quando não deveria e transforma problemas pequenos em incêndios difíceis de apagar. Ao mesmo tempo, ela é uma das figuras mais humanas do filme, movida por carência, vaidade e impulsos pouco filtrados. Sua simples circulação já altera o equilíbrio entre os personagens e força decisões apressadas.
David O. Russell trata tudo isso com leveza e humor ácido. Há situações claramente cômicas, quase constrangedoras, especialmente quando Richie exagera na autoconfiança e confunde autoridade com espetáculo. O riso vem rápido, mas nunca gratuito: ele sempre expõe o ego inflado de alguém ou a fragilidade de um acordo que parecia sólido minutos antes. O filme diverte sem transformar o golpe em algo glamouroso demais.
“Trapaça” não se interessa em explicar golpes ou em entregar lições morais. O foco está nas pessoas e nas escolhas que fazem quando pressionadas por prazos, poder e medo de perder tudo. Christian Bale sustenta bem um protagonista cansado de improvisar, Amy Adams imprime ambiguidade e inteligência a Sydney, e Bradley Cooper se diverte ao mostrar um agente que confunde ambição com mérito. É um filme sobre negociar limites e sobre como quase ninguém sabe exatamente onde eles estão.
★★★★★★★★★★



