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Um Monet de 100 milhões some — Pierce Brosnan e Rene Russo se enfrentam no suspense mais intrigante da Netflix Divulgação / Metro-Goldwyn-Mayer

Um Monet de 100 milhões some — Pierce Brosnan e Rene Russo se enfrentam no suspense mais intrigante da Netflix

“Thomas Crown — A Arte do Crime” começa pelo gesto que muda a rotina: um Monet some do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, e a ausência passa a comandar o relógio dos personagens. A narrativa entra no museu, sai, retorna e repete trajetos. Salas e corredores voltam a aparecer, e o filme gasta minutos deixando o espectador entender onde cada pessoa está antes de avançar.

Thomas Crown circula como quem não precisa se explicar. Bilionário, ele atravessa ambientes com naturalidade, e a câmera o acompanha sem pressa, como se esse acesso fosse parte do enigma. A história não o coloca logo no centro do protocolo de suspeita. Isso empurra a investigação para um caminho mais indireto e alonga o tempo de espera: conversas, retornos ao mesmo ponto, gente medindo palavras. Para quem está na poltrona, a sessão não oferece atalhos e pede permanência.

Corredores, elevadores, salas amplas

Pierce Brosnan ocupa esse espaço com controle de gesto e economia de fala. Ele caminha, para, observa e retoma ações sem acelerar. A atuação aposta na repetição: o personagem volta a situações parecidas e muda pouco, às vezes só no olhar. Essa variação pequena mantém o jogo andando, mas exige atenção do público por vários minutos, sem pausa fácil para respirar.

Do outro lado entra Catherine Banning, investigadora contratada para recuperar a pintura mediante comissão. A partir daí, o filme alterna rotina profissional e aproximação pessoal, sem separar claramente uma coisa da outra. Quando a investigação encosta em alguma pista, as cenas encurtam e trocam de lugar mais rápido. Quando a relação entra em primeiro plano, o tempo se estende, e a sessão passa a lidar com espera e repetição de encontros.

Rene Russo constrói Catherine com presença física e atenção ao espaço. Em confrontos verbais, ela ocupa a sala com postura firme e fala sem ornamentação. Quando a dúvida entra, o corpo desacelera, e o filme acompanha essa mudança sem empurrar explicação. Em vez de resolver por discurso, a personagem entra, sai, volta e insiste. Para quem assiste, isso vira uma sequência de retornos: o filme repete o mesmo tipo de encontro e deixa a conversa durar mais tempo antes do corte.

O romance entre os dois não aparece como pausa confortável. Ele interfere no andamento da investigação, empurra decisões para depois e introduz atraso. O filme registra esse efeito no ritmo: reuniões demoram mais, encontros se repetem, e a expectativa se acumula no intervalo entre uma conversa e outra. O espectador sente o tempo esticar porque a narrativa não entrega solução rápida. Cada escolha empurra a próxima cena alguns minutos adiante.

John McTiernan organiza o suspense pela circulação. Personagens se cruzam em corredores, elevadores e salas amplas, e a câmera mantém o espaço legível enquanto acompanha os deslocamentos. Isso reduz confusão e dá ao público um mapa claro do que está acontecendo. Ao mesmo tempo, aumenta a cobrança: com o espaço bem definido, sobra menos margem para se distrair. O filme pede que o espectador conte o tempo de cada ida e volta.

Em certos trechos, a montagem corta mais rápido para acelerar uma ação específica, e o ritmo fica mais direto por alguns minutos. Logo depois, a narrativa volta ao compasso mais lento e retoma a espera como parte do caminho. Essa alternância evita que tudo vire um único bloco, mas também impede a expectativa de aceleração constante. Quem assiste precisa ajustar o foco: há momentos de corrida curta e, em seguida, momentos em que o filme volta a alongar o percurso.

Reuniões, vigilância, encontros marcados

Ben Gazzara entra como presença que puxa a investigação para procedimentos mais tradicionais. Sua participação marca o contraste entre o jogo pessoal de Crown e Banning e a rotina institucional. As cenas com ele tendem a ser mais objetivas: metas claras, fala direta, menos ambiguidade. Isso ajuda a organizar a sessão e oferece ao espectador um ponto de apoio, especialmente quando a narrativa volta a se prender em encontros repetidos do casal.

O roteiro evita detalhar demais o mecanismo do roubo. Em vez disso, retorna às consequências da suspeita: vigilância, encontros marcados, tentativas de antecipar o movimento do outro. A história repete essas situações com pequenas variações, e a diferença costuma estar no tempo que o filme deixa a cena se estender antes de cortar. Esse movimento pode cansar parte do público, porque o avanço vem a conta-gotas. Por outro lado, mantém o jogo ligado, e cada retorno pede energia para reparar no detalhe novo.

Ao longo do caminho, o filme usa espaços institucionais e deslocamentos como parte do atraso. Entradas controladas, ambientes amplos e trajetos longos ampliam o intervalo entre ação e resposta. A narrativa não tenta esconder esse intervalo. Ela o coloca na frente do espectador, que percebe a demora como dado da sessão, minuto a minuto, sem ganhar uma explicação verbal para isso.

Em seguida, a trama volta a elementos já vistos e os reorganiza de leve. Não há revelações bruscas que virem a mesa de uma vez. O interesse se mantém no ajuste fino: uma frase reaparece em outro contexto, um encontro se repete com informação a mais, uma espera se estende mais do que antes. Para quem assiste, isso vira um suspense por acúmulo, que depende da disposição de acompanhar repetição e variação sem receber gratificação imediata.

Sem recorrer a pressa artificial, “Thomas Crown — A Arte do Crime” entrega uma sessão de gênero ancorada em observação e tempo. O filme não facilita para quem quer resolução rápida, mas também não se espalha quando mantém o espaço claro e o jogo em movimento. A sessão encerra com um percurso controlado: corredores, salas, encontros marcados e minutos de espera, todos pesando na energia de quem acompanhou até o último corte.

Filme: Thomas Crown — A Arte do Crime
Diretor: John McTiernan
Ano: 1999
Gênero: Crime/Romance/Thriller
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★