“Se Deus não existe, tudo é permitido”. De alguma maneira, a célebre frase de Dostoiévski alude às palavras de Jesus ditas a Pedro e registradas por Mateus sobre sermos livres para fazer o que diz nossa humana vontade, desde que saibamos que pagaremos um preço. Claro que isso só vale para quem crê, e então “Herege” passa a fazer sentido. Despretensiosamente, Scott Beck e Bryan Woods chegam a uma análise perturbadora sobre o significado das religiões e sobre os rótulos que insistimos em dar à divindade, manancial de tensão e confronto. Mais um longa urdido na ótima parceria entre Beck e Woods, roteiristas do incensado “Um Lugar Silencioso” (2018), dirigido por John Krasinski, “Herege” mantém a qualidade habitual, porém com ainda mais substância.
Conversas reveladoras
Também guardando a tradição, o filme rompe do jeito mais improvável. Entre uma pregação e outra, uma dupla de missionárias da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias conversa sobre a eficácia de uma marca de preservativos para homens bem-dotados. Meio ingênua, a irmã Paxton confidencia que o cunhado as usava, e as duas chegam ao sexo e à pornografia, assuntos pelos quais as duas se interessam, apesar de possivelmente terem engatado no tricô sujo por causa do anúncio nas costas no banco onde se sentaram. Depois de mais alguns instantes, elas se levantam e seguem pelas ruas de Boulder, Colorado tentando uma conversão estabanada dos pedestres com que cruzam, mas só enquanto não atingem seu alvo. O senhor Reed, um solitário de meia-idade que mora no perímetro rural, é a arca de ouro a ser ganha.
O fanatismo encontra a loucura
A casa fica muito longe, cai uma tempestade, Paxton e Barnes, sua companheira de missão, precisam bater à porta muitas vezes e quase desistem, até que o dono da casa aparece. Elas falam e falam, ele ouve, a chuva não para, ele as convida a entrar e elas aceitam, depois de convencidas de que a esposa de Reed está na cozinha, assando uma torta de mirtilo. Quando ele escorrega para dentro da escuridão de um cômodo interno, o cheiro deve ter tomado conta da sala, para onde o anfitrião volta com copos de refrigerante. Eles finalmente passam a debater sobre as Escrituras, depois de Reed fazer uma piada infeliz sobre a doença que matou o avô de Barnes e Paxton enaltecer a memória de Joseph Smith Junior (1805-1844), o fundador da congregação. Os diretores-roteiristas vão frisando os pontos de atrito entre Reed e as moças, que pedem que a esposa dele venha, e o público também fica incomodado, mas uma coisa há que se reconhecer: ele sabe bem mais da doutrina que as interlocutoras — o que, pensa, confere-lhe o direito de testá-las.
O medo do que não se vê
Encarnação muito idiossincrásica do mal, Reed não quer castigar Paxton e Barnes porque as odeia, mas porque elas não têm ideia do que estão fazendo da própria vida. Melhor personagem de Hugh Grant desde Alex Fletcher, o antigalã de “Letra e Música” (2007), de Mark Lawrence, Reed é um diabo goethiano, racional, sofisticado, avesso a ignorantes e fariseus como aquelas duas garotas presunçosas, miseráveis, dignas de pena, no fundo. Grant se diverte, conduzindo o filme com surpreendente leveza, e obtendo de Chloe East e Sophie Thatcher esse efeito, não obstante Paxton e Barnes sejam meras escadas para o veterano. Apesar de deixar pontas soltas, a exemplo da imagem da borboleta no lustre, “Herege” fixa-se no conceito da degenerescência do espírito daqueles que enxergam o demônio no que não compreendem — ou no que não gostam. Beatos sempre foram uma gente muito perigosa.
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