“As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl” acompanha Max (Cayden Boyd), um garoto de dez anos que vive à margem do próprio cotidiano. Em casa, os pais parecem sempre ocupados demais; na escola, os colegas fazem questão de lembrá-lo de que ele não se encaixa. Para sobreviver a esse ambiente pouco acolhedor, Max faz o que pode: escreve, desenha e cria mundos onde finalmente tem controle sobre alguma coisa. A imaginação surge como abrigo, mas também como risco, porque o filme rapidamente deixa claro que fugir demais cobra seu preço.
Esse equilíbrio se rompe quando Sharkboy (Taylor Lautner) aparece e prova que aquelas histórias não estão confinadas ao caderno. O garoto meio humano, meio tubarão, não surge como fantasia fofa, mas como um problema real pedindo ajuda. A partir daí, Max precisa decidir se assume responsabilidade pelo que criou ou se continua se escondendo atrás das ideias. A aventura começa menos como sonho realizado e mais como convocação: alguém precisa responder pelo caos que se aproxima.
O planeta Baba, para onde Max é levado, parece à primeira vista um parque de diversões desenhado por uma criança hiperativa. Montanhas-russas, cores saturadas e cenários exagerados vendem a promessa de liberdade total. Mas Lavagirl (Taylor Dooley) funciona como contraponto desde o início. Ela entende melhor que aquele mundo depende de equilíbrio e que imaginação sem direção pode virar ameaça. O lugar oferece possibilidades infinitas, mas também reage rápido quando algo sai do controle.
A ameaça central ganha forma com o Sr. Elétrico (George Lopez), vilão que tenta apagar sonhos e impor regras rígidas a um espaço feito de invenção. Ele não aparece apenas como antagonista caricato; sua presença altera o funcionamento do planeta e encurta o tempo de reação dos personagens. Max percebe que não basta criar heróis interessantes: é preciso decidir como eles agem quando pressionados. Cada erro tem efeito imediato, e cada hesitação custa território.
Robert Rodriguez conduz tudo em ritmo acelerado, sem muito espaço para contemplação. A fantasia é vibrante, mas nunca totalmente segura. Quando Max tenta resolver tudo com ideias jogadas ao acaso, o filme responde com perdas visíveis. Quando ele assume decisões mais claras, recupera algum controle. Essa lógica simples ajuda a manter a narrativa em movimento e evita que a história vire apenas uma colagem de efeitos.
O humor aparece como alívio momentâneo, especialmente nas reações exageradas e nas falas do Sr. Elétrico, interpretado por George Lopez com timing cômico eficiente. As piadas funcionam, mas raramente resolvem problemas. Elas atrasam conflitos, compram alguns segundos de fôlego, mas logo a pressão volta. O filme parece consciente de que rir não substitui agir, e usa a comédia como pausa, não como saída.
Kristin Davis, no papel da mãe de Max, representa bem o mundo adulto distante que cerca o garoto. Sua ausência emocional no início ajuda a explicar por que Max deposita tudo na imaginação. O filme não transforma isso em discurso explícito, mas deixa a consequência clara: falta orientação, sobra responsabilidade cedo demais. Dentro de Baba, Max aprende rápido que criar é fácil; sustentar o que foi criado, nem tanto.
“As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl” funciona melhor quando aceita sua própria lógica infantil sem subestimar o espectador. É um filme irregular, visualmente exagerado e às vezes ingênuo, mas honesto na forma como trata crescimento, autoria e responsabilidade. A imaginação aqui não é solução mágica, e sim ferramenta instável que exige cuidado. Max sai diferente de como entrou, não porque venceu tudo, mas porque aprendeu que sonhar também exige escolhas.
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