“A Verdade Nua e Crua” entra com pressa de pôr o embate em funcionamento e não alonga apresentação. A queda de audiência vira argumento para decisões rápidas, e as conversas já começam em tom de cobrança. Quando precisa virar de assunto, a história retorna ao ambiente de trabalho e usa a lógica do programa para empurrar a próxima cena: tempo contado, hierarquia clara, gente esperando resposta. Isso economiza explicação no começo. A sessão segue andando, e a troca de falas ocupa o espaço que, em filmes do tipo, costuma virar exposição.
No centro dessa organização está Abby Richter, vivida por Katherine Heigl. Ela aparece como profissional competente, conservadora nas regras e cuidadosa com o que põe no ar. O roteiro a coloca em posição de comando e, logo depois, tira esse comando da mão dela, forçando negociação em espaços apertados: sala de reunião, corredor, estúdio. A cada rodada, Abby tenta organizar pauta e limitar improviso. O filme prende isso em ações pequenas e repetidas ao longo do tempo: respiração presa, resposta cortada, olhar que volta para o relógio antes de continuar a frase.
Relógio e fala atravessada
A contratação do concorrente altera o tom sem pedir licença e muda o ritmo do estúdio na mesma hora. Em vez de entrar por mérito construído, o novo rosto chega por decisão do chefe, com a audiência como justificativa imediata. A comédia passa a depender de uma cena que volta muitas vezes: um argumento agressivo ocupa o espaço, alguém tenta retomar a conversa, a interrupção vem de novo. Em alguns trechos, o excesso de gente falando alto ainda rende riso, porque o estúdio vira disputa por segundos de atenção. Em outros, a cena se alonga e o minuto aparece, já que a provocação retorna quase do mesmo jeito.
Gerard Butler interpreta Mike Chadway como presença que se impõe pelo volume e pela provocação. Ele se vende como “especialista” em dizer o que atrai homens e usa frases de efeito para dominar o quadro, mesmo quando a resposta já está na cara de quem ouve. O filme repete o desenho: Mike dá uma regra, Abby contesta, ele corta a contestação e transforma a discordância em performance. Quando a câmera permanece no constrangimento de Abby por segundos a mais, a piada depende do tempo de espera, não do corte. A sessão avança e, quando esse intervalo reaparece, a reação tende a vir com menos surpresa.
A ponte para o enredo amoroso vem direta da premissa e aparece sem rodeio: com a relação amorosa em baixa, Abby recorre aos “serviços do consultor” para conquistar o vizinho. A comédia trata essa consultoria como agenda. Em vez de um conselho solto, entram treino, repetição e correção, com Mike ocupando o papel de instrutor e Abby virando aluna que precisa decorar falas e ajustar postura. Isso produz cenas de tentativa e erro que tomam tempo e energia: preparar, ir, voltar, ensaiar de novo. Quando o plano dá errado, o filme segura o erro na tela por mais um pouco; quando melhora, segura também, como se fosse preciso registrar cada etapa do combinado.
Nessas idas e vindas, o vizinho vira objetivo, não pessoa. Ele aparece como teste para a disciplina da protagonista, e o interesse principal permanece na dupla que disputa comando, no trabalho e fora dele. O romance ganha cara de procedimento: marcar encontro, manter o combinado, sustentar conversa sem sair do script. A consequência é concreta no andamento da sessão: a comédia troca descoberta por checklist. Quem assiste acompanha a execução, não a aproximação. Quando surge algum detalhe que poderia abrir o personagem do vizinho, a cena passa rápido e retorna ao choque de temperamentos entre Abby e Mike.
Corredor, estúdio e bastidor
Para aliviar o duelo, entram coadjuvantes em momentos sociais que empurram a história adiante. Bree Turner aparece para puxar situações e colocar Abby em contraste com alguém mais solta na convivência, em trechos que interrompem, por instantes, o vaivém entre corredor e estúdio. Isso dá um respiro curto no tempo da sessão. Ainda assim, o filme raramente deixa a conversa crescer: a presença entra, entrega reação e sai. O retorno ao confronto principal vem quase sempre com fala atravessada e competição pelo último comentário, como se o relógio do programa exigisse a próxima batida.
O roteiro assinado por Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith, com história de Nicole Eastman, organiza o caminho com clareza: objetivo definido, obstáculos em sequência, urgência para passar de um ponto ao outro. A trava aparece no tipo de piada que sustenta as cenas. Ao depender de um “especialista” que se afirma pelo choque, a escrita precisa variar esse choque o tempo todo para manter a autoridade dele em cena. Quando não varia, repete. E repetição, em comédia, vira algo fácil de notar com o passar dos minutos: o riso cai, a espera entre uma provocação e outra se alonga, e a sessão chama atenção para o tempo que está gastando naquela mesma regra.
A direção de Luketic, que já havia dirigido “Legalmente Loira” (2001), aparece na condução eficiente de entradas e saídas. Muita coisa anda porque alguém precisa entrar no ar, porque uma ordem interrompe conversa, porque o telefone toca e muda o rumo. Essa disciplina segura o filme de se espalhar, mesmo quando o conteúdo da piada é fraco. “A Verdade Nua e Crua” corre e não passa de duas horas, mas pede paciência com cenas que prolongam humilhação como gatilho. Quando chega ao “além do esperado” prometido pela premissa, a história ainda prefere repetir o confronto e manter Abby na posição de quem aprende no aperto; o telefone toca, alguém corta a fala, e a cena passa adiante.
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