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Netflix: um porão, muitas versões e uma verdade que ninguém quer dizer em voz alta Divulgação / Netflix

Netflix: um porão, muitas versões e uma verdade que ninguém quer dizer em voz alta

Naquela manhã, “Alarme de Incêndio” começa numa escola para meninas em uma cidade sudita com o relógio marcando entrada e saída, e o dia corre como rotina até um incêndio misterioso estourar no porão. A partir daí, alunas e professoras trocam o plano de estudo por deslocamento e tentativa de orientação, com pânico e confusão ocupando o que era um espaço de aula. A história não entrega uma explicação pronta e joga quem assiste para o mesmo esforço de quem está ali, separar informação de rumor enquanto as horas passam. Isso custa atenção e coordenação, porque a dúvida sobre a causa vira tarefa em cima de um problema que já exige reação.

À tarde, o filme segue com a reação coletiva e volta à pergunta que circula entre alunas e professoras, se foi acidente ou algo intencional, sem oferecer um descanso de certeza. As cadeiras mudadas de lugar e o corredor cheio de gente que tenta se orientar atrapalham qualquer tentativa de organizar o que está acontecendo. Nesse trecho, Alshaima’a Tayeb aparece como parte do grupo que atravessa o choque sem pausa, e a presença dela ajuda o público a não perder o fio quando a informação chega quebrada. Para quem está na cadeira, isso cobra minutos de atenção contínua, porque o quadro reúne muita gente ao mesmo tempo e o básico do que se sabe muda pouco.

Horas depois, a dúvida sobre a origem do incêndio ocupa ainda mais espaço porque não existe um ponto estável de acordo, só versões que disputam a mesa e se acumulam em papel e pasta. O filme acompanha esse movimento sem oferecer uma lista de certezas, e a insistência nessa circulação exige trabalho do espectador, que precisa guardar o que ouviu e conferir o que se repete. A rotina de tentar organizar o caos vira gasto de energia mental e de tempo, porque a história recoloca a mesma pergunta mais de uma vez e não abre um caminho curto. O incêndio permanece como fato central, mas a leitura do que ele significa fica em aberto.

Mesa, papel e pasta

À noite, “Alarme de Incêndio” aproxima o desastre do tema das condições de vida das mulheres no país e coloca os dois assuntos no mesmo ambiente, com pasta, papel e mesa reaparecendo como tentativa de organizar o que não se organiza. A narrativa pede que o público acompanhe o incêndio e, ao mesmo tempo, mantenha na cabeça a entrada desse contexto sem perder a dúvida principal. Nesse ponto, Khairia Abu Laban aparece como parte do grupo que sustenta a conversa quando a pergunta volta a circular e ninguém consegue fechar a conta. Isso custa tempo de atenção, porque a mesma cena precisa carregar crise e contexto enquanto a confusão não baixa.

Durante a noite, o porão permanece como área que concentra o medo sem entregar detalhe, e a porta vira limite entre o que se sabe e o que se imagina. O filme retorna à mesma incerteza e prende o público à pergunta sobre acidente ou intenção, sem oferecer alívio rápido. A repetição vira trabalho, porque quem assiste precisa aceitar a espera e continuar juntando pedaços do que foi dito, com pouca informação nova. Isso custa paciência e foco, já que a experiência depende de permanecer com reações ao redor e um centro de dúvida que não se fecha.

No começo do dia, a confusão entre alunos e professores segue como motor da história e exige decisões improvisadas que esbarram em balcão, papel e tentativas de organização que não se completam. Adwa Fahad aparece compondo esse conjunto de reações, sem transformar a situação em vitrine individual, e o elenco trabalha em bloco para manter o caos como experiência coletiva. Para o público, o gasto vem da necessidade de acompanhar várias reações sem guia claro, o que pede energia para não se perder no ruído. A dúvida sobre a causa do incêndio continua ocupando espaço, e a história não troca essa dúvida por explicação.

Porta, copo e cadeira

Naquela noite, quando o filme mantém juntos o incêndio no porão e o assunto das condições de vida das mulheres no país, a sala e o copo entram como sinais de rotina interrompida, sem virar detalhe de distração. O espectador que chega pelo suspense precisa aceitar que a pergunta se repete e que a confusão não se resolve com facilidade, o que aumenta o tempo de permanência na cadeira. Quem chega pelo drama encontra o mesmo gasto, porque a história não abre atalhos e exige atenção até o último momento. A sessão termina com o público ainda na cadeira, ajustando a postura e tentando recolocar a pergunta em ordem.

Filme: Alarme de Incêndio
Diretor: Khalid Fahad
Ano: 2024
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★