Em “A Seita”, o apocalipse chega devagar. Enquanto isso, a diretora Jordan Scott esmera-se em averiguar os tantos mecanismos que agem sobre nossa combalida humanidade, sempre atrás de qualquer coisa que lhe confira sentido. Crises se sucedem, ratificando que a desordem fundamental que perpassa a vida do homem na Terra ainda não alcançou o estado de tétrico refinamento que logo terá. O futuro é cercado de promessas enganosas, personificadas na difícil relação de um pai e uma filha, ainda mais desgastada quando um evento infeliz do passado concorre para um infortúnio de agora. Honrando o sobrenome, a filha caçula de Ridley Scott consegue boas cenas a partir de um roteiro trivial. E tudo flui.
Mal-estar da civilização
Inspirado em “Tóquio” (2015), romance do inglês Nicholas Hogg, o filme de Scott aplica uma lupa sobre as patologias do ser humano como criatura gregária, resistentes a antídoto quase todas. Ben Monroe, psicólogo social dos mais respeitados do mundo, tenta se convencer de que não sente falta da rotina doméstica, quando era casado e tinha a filha, Mazzy, sob a sua rigorosíssima vigilância. Hoje, ele vive em Berlim, para onde Mazzy está se deslocando, reúne material para um novo livro e conta com a ajuda de Max, o amigo policial interpretado por Stephan Kampwirth, e sua parceira Nina, de Sylvia Hoeks, para ter informações exclusivas a respeito de um chocante suicídio em massa. Mazzy chega em meio a esse turbilhão, depois de obrigada a tomar um trem até o bairro do pai porque ele não pôde ir buscá-la no aeroporto. Ela ferve por dentro. Ele acha graça.
Pactos diabólicos
O encontro dos dois dá substância dramática ao filme, e a diretora-roteirista sabe explorar a dicotomia na personalidade de Ben e Mazzy, tratando de juntar um terceiro elemento. Acostumada a bajulações, Mazzy não demora a rejeitar o pai que estimula sua independência e acaba ficando muito próxima de Martin, membro de uma associação que exalta atitudes ambientalmente corretas. Nada recomendáveis para quem não suporta reexperimentar os traumas da meninice, vítima de fobias obscuras, os lances que reúnem Ben, Mazzy e Martin coroam o horror sobre o qual Scott se debruça ao longo de hora e meia, imbuindo Eric Bana, Sadie Sink e Jonas Dassler de explicitar incômodos distintos da pós-modernidade, perdida ao cruzar um deserto de ideias que pode não ser apenas metafórico. E que sufoca igual cianeto.
★★★★★★★★★★


