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No Prime Video, um filme que mistura desejo, desconforto e aquela sensação de “tem algo errado aqui” Divulgação / Lionsgate

No Prime Video, um filme que mistura desejo, desconforto e aquela sensação de “tem algo errado aqui”

Erotismo não é festa, mas o fluido que azeita a engrenagem das relações, frio e mecânico. Feita esta ponderação, pode-se dizer que o grande erro de “Estritamente Confidencial” é tomar o sexo à luz de uma alternativa de empoderamento, como se passou a dizer. Estreando precocemente na direção, o ator e modelo Damian Hurley, 21 anos, está verde ainda para saber que o gozo é sempre eivado de hipocrisia, com parceiros lutando contra o arquétipo de imundície e corrupção e ávidos por ideais de pureza que nunca hão de existir. Ironicamente, tal proposição se confirma quando se repara no sobrenome da estrela do longa, e verifica-se que se trata da mãe do diretor. O trabalho dos Hurley é um exemplo claro de filme que chama atenção menos pela história que pelas notas de rodapé.

Luxúria (quase) explícita

Um ano depois da morte de Rebecca, Lily resolve oferecer uma reunião para celebrar a memória da filha (!). Mia convida os outros amigos da finada, percorrendo os lugares a que ela ia, obrigada a insistir algumas vezes, e, sem sutileza, o roteiro de Hurley deixa claro que há algo de podre nesse reino. Enquanto a trama não segue para a ilha caribenha em que Lily e Jemma esperam os hóspedes, Mia confunde o público, uma das poucas ideias eficazes, num amálgama de charme e, como se vai ver, dissimulação. Georgia Lock ocupa boa parte do primeiro ato, e percebe-se a tentativa de Hurley quanto a conferir identidade a seu longa de estreia. Na ilha, o encontro de Mia com James, Will e Natasha faz vir à superfície as tensões diáfanas que teimam em não arrefecer. Todos seguem para o palacete de Lily, disfarçando o constrangimento com rapapés.

Segredos de polichinelo

“Estritamente Confidencial” observa com atenção algumas das fórmulas do gênero, conferindo destaque àquela que recomenda lançar mão de um elenco bonito para tapar lacunas narrativas. Ao contrário do que seria natural, Lily não demonstra tristeza, sequer abatimento, surgindo deslumbrante nos vestidos cheios de decotes e fendas que hipnotizam a audiência e Natasha, com quem vive um romance. Não deveria haver nada de mais nas cenas entre as duas, mas Hurley quer chocar a burguesia, contando com a experiência da mãe para atingir o alvo. Elizabeth Hurley se sai bem melhor que a encomenda, e é até possível classificar sua performance como corajosa, a ponto de obnubilar o desempenho de Pear Chiravara, que até parece esconder um risinho nervoso. O desfecho guarda uma revelação deus ex machina sobre Rebecca, a personagem de Lauren McQueen, perfeitamente aceitável num filme tão vesano. 

Filme: Estritamente Confidencial 
Diretor: Damian Hurley
Ano: 2024
Gênero: Crime/Drama/Erótico/Mistério/Thriller
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.