“Infiltrado na Klan”, dirigido por Spike Lee, acompanha Ron Stallworth (John David Washington), um jovem policial do Colorado que encontra uma brecha inesperada para investigar um grupo supremacista branco em 1978. Ron consegue contato direto com a Ku Klux Klan, mas não pode aparecer pessoalmente, o que o obriga a dividir sua identidade operacional com outro agente, Flip Zimmerman (Adam Driver), que passa a representá-lo nos encontros presenciais.
Ron inicia a operação por telefone e cartas, construindo confiança com base apenas na voz, no vocabulário e na disciplina em nunca sair do personagem. Cada ligação amplia o acesso, mas também aumenta o risco, já que qualquer deslize encerra tudo. Dentro da polícia, seus superiores observam com cautela, autorizando a continuidade enquanto o fluxo de informações se mantém útil. O poder de Ron cresce, mas é sempre provisório.
Quando a presença física se torna inevitável, Flip entra em cena. Interpretado por Adam Driver, ele assume o papel mais exposto da investigação, frequentando reuniões e lidando cara a cara com membros da Klan. Flip precisa reagir rápido, medir cada palavra e sustentar uma identidade que não é sua. A vantagem prática é clara: acesso direto. O preço também: vigilância constante e perigo imediato.
A dinâmica entre Ron e Flip sustenta o coração do filme. Um controla a operação à distância; o outro absorve a pressão no campo. A investigação só avança porque essa engrenagem funciona em sintonia absoluta. Spike Lee constrói essa troca com clareza, mantendo o foco nas decisões e nas consequências, sem transformar a história em um jogo de esperteza estilizado.
Há espaço para humor, mas ele surge de situações concretas, nunca como alívio gratuito. A comédia aparece quando a farsa precisa ser ajustada em tempo real, revelando o absurdo da situação sem diminuir o perigo. O riso dura pouco, porque a ameaça retorna rápido. Aqui, o humor é ferramenta de sobrevivência, não distração.
À medida que a Klan ganha projeção e figuras mais influentes entram no radar, o risco da operação aumenta. Ron percebe que o acesso conquistado pode virar armadilha, enquanto Flip sente o peso de estar cada vez mais próximo de gente disposta à violência. A investigação avança, mas o controle diminui. Cada decisão passa a ter impacto imediato.
Spike Lee conduz o filme com olhar direto, interessado menos em discursos e mais em como instituições lidam com ameaças internas. Alec Baldwin e Isiah Whitlock Jr. aparecem em papéis que ajudam a contextualizar o ambiente político e policial da época, ampliando o alcance da história sem desviar do eixo central.
“Infiltrado na Klan” funciona porque transforma procedimentos simples em tensão constante. É um filme que confia no enredo, nos personagens e nas escolhas práticas que eles fazem. Sem spoilers, basta dizer que nada aqui é fácil, nada é seguro e nenhuma vitória vem sem custo real.
★★★★★★★★★★



