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O filme “escondido” no Prime Video que mostra por que Peter Dinklage é gigante Peter Mountain / Metro-Goldwyn-Mayer

O filme “escondido” no Prime Video que mostra por que Peter Dinklage é gigante

Cyrano de Bergerac entra em um salão, troca provocações, resolve um duelo e sai com a impressão de que pode conduzir qualquer conversa. Em “Cyrano”, esse domínio dura pouco quando Roxanne vira a pessoa que ele deseja e, ao mesmo tempo, a pessoa diante de quem ele engole a frase mais simples. Ele se aproxima, testa o terreno, recua meio passo e toma a decisão que reorganiza a história, escrever por outro homem para que Roxanne se apaixone por Christian. A partir daí, o romance depende de tarefas bem concretas, combinar hora, achar um canto discreto, escrever rápido, entregar recados, decorar trechos e aparar palavras para não deixar rastro.

Do acordo com Christian em diante, Cyrano vira mão de obra de bastidor. Ele encontra o cadete antes de cada aproximação, repassa o texto, corta exageros, empurra o jovem para a porta certa e depois precisa voltar para ajustar o que saiu torto. O relógio aperta, as portas se fecham, há corredores vigiados, e a guerra desloca gente no meio do caminho. O preço vira rotina de deslocamento e de espera, mais passos à noite, menos sono, menos chance de estar onde gostaria, e a sensação de que uma carta atrasada pode desfazer dias de esforço. A história avança nessa base de pequenas urgências, um bilhete que não pode falhar, um encontro que pede improviso, uma resposta que precisa chegar antes de outra notícia interromper tudo.

Cartas na mão, duelos no salão

Peter Dinklage sustenta Cyrano sem pedir piedade e sem transformar insegurança em pose. Ele faz do personagem alguém acostumado a vencer no verbo e na espada, mas que recua quando a exposição vira risco direto, diante da pessoa errada e no lugar errado. Dinklage usa pausas curtas e olha para o lado como quem calcula saída, e o corpo denuncia o trabalho de manter tudo de pé. Quando Cyrano vira o autor invisível do romance, o ator deixa o cansaço aparecer em detalhes, uma chegada atrasada porque estava reescrevendo mais uma linha, um fôlego curto depois de atravessar a cidade, um silêncio segurado para não entregar demais.

Roxanne não é tratada como prêmio, e Haley Bennett dá a ela vontade própria e senso de escolha. A personagem quer ser tocada por palavras e ideias, e isso não é exibido como capricho, é uma preferência que guia decisões e cobra exposição. Bennett faz Roxanne circular por espaços onde cada visita tem peso social, e essa circulação custa tempo, energia e paciência, porque toda conversa acontece sob olhos atentos. Quando ela lê e relê cartas, Wright evita a caricatura da “romântica distraída” e acompanha uma mulher que decide, insiste, espera e se coloca em jogo, mesmo sem ter todas as peças na mesa.

Christian entra como presença física e como alguém tentando sustentar uma voz emprestada, e Kelvin Harrison Jr. encontra o ponto exato desse desconforto. O cadete aprende a repetir frases, erra o tom, acerta por acaso, volta para tentar de novo, como se cada encontro fosse um ensaio diante de Roxanne. O triângulo se sustenta porque os três querem algo claro e incompatível, Cyrano quer amar sem se colocar na linha de tiro, Roxanne quer alguém que a entenda, Christian quer ser digno do desejo que desperta. O que parecia só um acordo vira uma rotina de coordenação, com encontros que dependem de mensageiros, de esconderijos e de respostas no horário certo.

Escadas, pátios e canções

As canções entram como extensão dessa correria, não como pausa decorativa. Há números que acompanham deslocamentos e mudanças de lugar, como se cada declaração exigisse atravessar ruas, escadas e pátios antes de chegar ao ouvido certo. Joe Wright organiza entradas e saídas com apuro e sabe quando abrir para um conjunto e quando apertar no rosto de quem está segurando um segredo. Nem toda música tem o mesmo peso dramático, e algumas esticam a cena mais do que o necessário, mas o filme volta a ganhar força quando retorna ao núcleo do conflito, manter o romance por procuração sem deixar o autor aparecer.

A história se apoia numa linhagem conhecida e não tenta disfarçar isso. “Cyrano de Bergerac” (peça de Edmond Rostand, 1897) está no horizonte como molde do triângulo amoroso e como discussão sobre orgulho e exposição. O longa também se ancora no musical de palco “Cyrano” (2018), mantendo a ideia de transformar confissão em canto e de dar corpo a cartas e bilhetes. O que torna esta versão mais particular é a insistência em acompanhar o trabalho diário do segredo, a carta reescrita, o encontro remarcado, o recado que atravessa a noite para não perder o momento.

“Cyrano” cresce quando insiste nessa conta simples de quem fala, quem assina e quem paga pelo silêncio. O romance caminha em etapas, aproximação, pacto, manutenção do segredo, e cada etapa exige mais deslocamento, mais espera e mais renúncia de presença. Sem revelar caminhos de encerramento, dá para dizer que o drama se apoia menos em truques e mais no peso acumulado de sustentar duas vidas ao mesmo tempo, uma pública, outra escondida. E a imagem que fica é concreta, a carta dobrada no bolso, a mão fechando o papel, e mais uma escada vencida sozinho no escuro.

Filme: Cyrano
Diretor: Joe Wright
Ano: 2021
Gênero: Drama/Musical/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★