A trama nasce de um gesto simples e brutal, um homem perde o que tinha e passa a contar os dias por um nome que ninguém entrega. Em “O Estrangeiro”, Martin Campbell coloca Quan diante de corredores e salas onde as respostas saem sempre quebradas, e o caminho anda quando ele decide que ficar sentado não devolve nada. O ataque que atinge seu restaurante não vira pano de fundo, ele empurra o protagonista para deslocamentos, telefonemas e idas a escritórios onde “investigação” costuma significar mais prazo do que retorno, com ele saindo do prédio do mesmo jeito que entrou, sem papel, sem endereço, sem horário.
Jackie Chan surge num registro contido, ombros baixos, olhar fixo, e um corpo que parece carregar peso extra a cada porta batida. Quan não vira justiceiro por eloquência, vira porque fica sem opção prática, a polícia limita detalhes, o balcão pede paciência, e o relógio corre do mesmo jeito. O roteiro amarra essa virada por degraus, primeiro ele tenta seguir a fila, depois decide furar a fila, e a conta aparece em cansaço acumulado, noites quebradas e um cuidado novo ao entrar e sair de lugares públicos, como quem mede cada passo para não chamar atenção.
Porta batida e volta longa
A história não depende de grande discurso, depende de repetição de tarefas, entrar, esperar, ouvir meia resposta, sair, atravessar Londres, voltar, insistir. A direção valoriza esse vai e vem porque ele deixa a raiva menos “bonita” e mais trabalhosa, Quan precisa planejar horários, observar rotas, escolher quando aparecer e quando sumir. Em vez de frases longas, a narrativa cobra em coisas pequenas, um turno perdido no restaurante, uma noite mal dormida, um deslocamento que termina em nada e obriga a recomeçar do ponto anterior, com a mesma pergunta presa na garganta.
Esse percurso tem um detalhe importante, ele é um homem sozinho tentando obter algo que circula em grupos, gabinetes e reuniões fechadas. Quan gasta energia em cada tentativa, chega cedo para esperar, sai tarde sem levar documento algum, e ainda precisa manter o negócio de pé, levantar grade, atender cliente, lavar louça, ouvir condolências e continuar respirando. Mesmo quando decide agir por conta própria, o trabalho não some, ele precisa chegar, observar, calcular o que dá para fazer sem chamar atenção, e aceitar que cada passo dado com pressa vira atraso depois, porque qualquer erro abre mais uma volta pela cidade.
Do outro lado está a política, tratada como sala aquecida, café servido e frases calibradas para não comprometer ninguém. Pierce Brosnan interpreta um figurão local com passado que pesa e uma habilidade de escapar por frestas institucionais, sempre com alguém ao lado, sempre com uma explicação pronta, sempre com um compromisso marcado em seguida. O interesse do filme está no choque entre dois tipos de força, Quan trabalha na insistência e no risco direto, o político trabalha com agenda, acesso e proteção, e cada encontro vira disputa por segundos de conversa e por uma lista de nomes que parece sempre incompleta, como se faltasse uma linha de propósito.
Café servido e gabinete fechado
Quando a ação entra de forma mais aberta, ela vem como extensão desse conflito e não como vitrine de acrobacia. Martin Campbell filma perseguições, entradas forçadas e confrontos com clareza, priorizando espaço e consequência, quem entra num lugar precisa sair dele, quem provoca reação precisa lidar com a reação. Chan usa o corpo como ferramenta e como limite, há golpes e técnica, mas há também respiração curta, mãos que tremem de esforço e o cuidado de quem sabe que um erro cobra caro, inclusive em tempo, porque depois é preciso esconder pegadas, mudar trajeto e recomeçar.
O roteiro de David Marconi mantém o foco no que os personagens fazem para obter algo concreto, e nisso o longa acerta mais do que erra. Há momentos em que as tramas paralelas exigem atenção extra, com disputas internas e conversas em gabinetes, mas a narrativa retorna sempre ao mesmo ponto de atrito, Quan quer nomes, quem tem nomes administra o tempo. A diferença é que, para um homem sem estrutura, tempo vira gasto de energia, e para quem ocupa cargo, tempo vira escudo, com telefone tocando, assessores filtrando e portas abrindo só até onde convém.
“O Estrangeiro” encerra com uma marca que não pede lembrança heroica, a imagem de um homem que volta a andar com poucos pertences, rosto fechado e passos medidos, como quem amassa um papel no bolso, espera o sinal abrir, confere duas vezes o lado da rua e atravessa.
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