Um artista se define menos por suas aptidões e mais pela urgência de expressão. Artistas são capazes de mudar inquietação em beleza, captando o mundo graças a um olhar idiossincrásico e sensível, que põe questionamentos no lugar das certezas. Infortúnios rondam os artistas como fantasmas em busca de um corpo; entretanto, eles parecem bem mais determinados que os homens comuns, inclusive para criar suas grandes chances. Esse foi o caso de Antonio Chichiarelli (1948-1984), um aspirante a pintor que desembarca em Roma vindo de Abruzzo, uma província a leste da capital italiana, disposto a tudo para viver de seu talento. Sem saber que seria o dono de um império.
O reino das aparências
Misturando gêneros, o diretor Stefano Lodovichi urde uma discussão acerca do verdadeiro significado da arte, frisando os vínculos que ela acaba por criar e manter. Chichiarelli, o Toni, vai além de estereótipos, e como todo jovem, quer rigorosamente tudo quanto supõe ser seu por direito, ambição justificada pelo refinamento com que passa suas impressões para a tela. Todos dizem que ele é bom no que faz, a começar por seus amigos, Vittorio e Fabione, um padre e um militante das Brigadas Vermelhas, uma organização terrorista da esquerda radical, detalhe sobre o qual o roteiro de Lorenzo Bagnatori e Sandro Petraglia se debruça ao longo do primeiro ato, a fim de deixar Toni com uma cara progressista, que engana. Quando Donata, a marchande interpretada por Giulia Michelini, sabe que ele tem o “Retrato de Jeanne Hébuterne com um Chapéu Grande” (1918) no quarto enxovalhado onde mora, fica boquiaberta. Sua surpresa só não é maior que o espanto na hora em que Toni lhe diz que se trata de uma réplica — pintada por ele.
Só um golpista
Lodovichi bate na tecla de que Toni é uma das figuras marginalizadas que a sociedade de mercado insiste em criar, mas a história tem lances que afrontam o óbvio. Depois de devidamente inserido no sistema e nas altas rodas, o protagonista acaba por experimentar do próprio veneno, tornando-se um pária, um deslumbrado cuja vaidade o arrasta para a lama. Pietro Castellitto confere ao anti-herói essa aura de bandido, que se sobrepõe ao encanto de um profissional das belas artes. De vez em quando, é bom chamar as coisas por seus nomes, e italianos são mestres nesse ofício.
★★★★★★★★★★


