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Netflix acaba de receber a comédia de Tina Fey e Amy Poehler perfeita para o fim de semana Divulgação / Universal Pictures

Netflix acaba de receber a comédia de Tina Fey e Amy Poehler perfeita para o fim de semana

A primeira decisão de “Uma Mãe Para o Meu Bebê” vem do cotidiano e não de um grande drama. Kate Holbrook resolve que quer ser mãe e não quer mais empurrar esse desejo para depois. A sequência de passos que se abre é bem concreta, com consultas, regras, contratos, telefonemas e esperas que mordem o que antes era tempo de trabalho e descanso. Tina Fey compõe Kate como alguém que tenta deixar tudo organizado com antecedência e, quando o dia foge do planejado, paga em horas extras, mau humor e aquela pressa de quem já saiu atrasada.

A escolha pela barriga de aluguel surge como tentativa de encurtar o caminho, mas também como troca de problemas. Kate não precisa apenas lidar com clínicas e papelada, ela passa a dividir decisões com outra pessoa, em ritmo e valores diferentes dos seus. A direção de Michael McCullers mantém a narrativa colada nas consequências imediatas dessas escolhas, porque o que move a comédia é ver um plano bem alinhado virar uma lista de recados, idas e vindas, combinado repetido e limite que precisa ser renegociado sem parar.

A casa vira campo de regras

Quando Angie entra de vez na história, o conflito ganha rosto e corpo. Amy Poehler interpreta a jovem com uma autoconfiança que vira bagunça quando encosta na disciplina de Kate. Angie fala, decide e ocupa espaço com facilidade, e isso obriga Kate a trocar a postura de cliente que comanda por uma rotina de conversa, ajuste e concessão. A convivência cobra logo em sono picado, paciência curta e deslocamentos que parecem pequenos, mas se somam, porque sempre existe mais um assunto para resolver, mais uma visita, mais uma pendência.

O filme também aproveita a fase de preparação para deixar a maternidade longe de idealização. Kate lê livros, monta quarto, pensa em escola e tenta organizar cada detalhe para receber o bebê, como se a arrumação do espaço desse conta da insegurança. A chegada de Angie sem ter onde ficar corta esse planejamento pela metade, porque passa a existir uma pessoa real dentro da logística, com hábitos que não cabem no manual. As briguinhas diárias nascem de coisas simples, como regras domésticas, horários, consumo e a diferença entre quem quer tudo pronto e quem vive resolvendo o que estourou na última hora.

Boa parte das piadas rende quando o roteiro se mantém nesse terreno de escolhas pequenas que viram discussão grande. “Uma Mãe Para o Meu Bebê” tem faro para situações em que ninguém está completamente certo, apenas tentando atravessar o dia com um acordo minimamente estável. Em alguns trechos, a história encosta em exageros que parecem colocados para arrematar a cena rápido, e aí perde um pouco do sabor do cotidiano. Quando volta para a convivência e para as negociações práticas, recupera o ritmo, porque o humor nasce do trabalho de coordenar duas pessoas que não se escutam com facilidade e que, mesmo assim, precisam falar uma com a outra.

Consultas e contrato na mesa

No elenco de apoio, Sigourney Weaver entra com presença firme e ajuda a colocar Kate sob olhar externo, com cobranças e expectativas que não vêm só de dentro de casa. Essas aparições lembram que a protagonista não enfrenta apenas a convivência com Angie, mas também a necessidade de sustentar a própria imagem em outros ambientes, onde falhas e improvisos viram comentário. O custo, aqui, é duplo, porque Kate tenta resolver assuntos íntimos sem perder o controle do expediente, e essa duplicidade cobra atenção, deslocamento e uma energia que vai acabando no caminho.

McCullers dirige com foco em timing de reação, pausas curtas e cortes que valorizam o constrangimento antes da resposta. O filme rende mais quando confia nesses instantes e deixa as situações respirarem, com as atrizes segurando a cena no olhar, na interrupção e no silêncio que sobra depois de uma frase atravessada. Quando tenta apressar um sentimento com linhas muito prontas, a escrita fica mais previsível e menos engraçada. Ainda assim, a condução mantém a história sempre amarrada ao que foi combinado, ao que foi quebrado e ao esforço de refazer o acordo na manhã seguinte, como quem volta para a mesa para discutir a mesma regra mais uma vez.

“Uma Mãe Para o Meu Bebê” se firma como comédia de personagens porque trata maternidade como rotina de tarefas, conflitos e escolhas que exigem coordenação diária. Quem procura um encontro entre humor e situações domésticas reconhecíveis encontra bons momentos, ancorados na diferença entre controlar tudo e aceitar que muita coisa escapa. E quando as duas conseguem dividir o mesmo sofá e o mesmo calendário, com o relógio chamando para a próxima consulta, a piada encontra seu tamanho sem precisar levantar voz.

Filme: Uma Mãe Para o Meu Bebê
Diretor: Michael McCullers
Ano: 2008
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★