Histórias de amor nunca são linhas retas, passam por confrontos, ressignificam-se, enfrentam mudanças compulsórias, fragmentam-se, voltam ao normal. Humanamente mágico, o amor cura, fragiliza, adoece, renova, queima no fogo gélido da indiferença, sem jamais ser uma coisa só, mesmo para quem dele partilha, com reações as mais esquisitas e atitudes as mais insanas, porque querem-se judiciosas. Essas são algumas das constatações diante de “Preparação para a Próxima Vida”, uma fábula moral que espraia-se para um gênero muito peculiar de fantasia. Em sua estreia solo na ficção, o sino-americano Bing Liu, indicado ao Oscar de Melhor Documentário por “Minding the Gap” (2018), prova que tem o talento cada vez mais raro de fazer sonhar.
Perdidos na tradução
Há algum tempo, Aishe tentara regularizar sua situação, mas parece ter se conformado em ser um barco sem porto. Ela é uigur, uma das 56 etnias oficiais da China, trabalha em restaurantes clandestinos de Chinatown e redobrou os cuidados após ter sido detida pelo ICE, a polícia aduaneira americana, escondida na carroceria de um caminhão. Skinner fez o percurso contrário. Depois de servir no Iraque por uma longa temporada, ele volta a Nova York sem um tostão, dorme na rua, faz um esforço para não sucumbir ao transtorno de estresse pós-traumático e recobrar sua sanidade, mas há qualquer coisa nele que apagou-se para sempre. Martyna Majok adapta o romance homônimo de Atticus Lish, de 2014, enfatizando as diferenças conjunturais entre Aishe e Skinner, num movimento que realça seus pontos de interseção, e daí para a paixão é um pulo.
Sentimentos antagônicos
Eles trocam olhares, ele vai até ela, o público, claro, espera que engatem um romance, mas sempre resta uma dúvida. Essas são duas almas muito feridas, em busca de aconchego, de consolo, e quando decidem passar a noite juntos, imprevistos estúpidos mostram que talvez seja melhor seguirem cada qual uma estrada. Aishe e Skinner simbolizam tristezas distintas, mas que se complementam, e Liu trabalha esse antagonismo com suavidade, deslocando o eixo da narrativa de uma para o outro e vice-versa, conseguindo de Sebiye Behtiyar e Fred Hechinger uma atuação louvável por sublinhar a inconstância emocional que grita neles. Há muitos fantasmas a serem exorcizados e a cidade os engole. O amor tem que esperar.
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