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Chegou à Netflix o filme em que Leonardo DiCaprio vira o próprio plot twist Divulgação / United Artists

Chegou à Netflix o filme em que Leonardo DiCaprio vira o próprio plot twist

“O Homem da Máscara de Ferro”, dirigido por Randall Wallace, coloca Leonardo DiCaprio, Jeremy Irons e John Malkovich diante de um golpe íntimo: tirar um prisioneiro da Bastilha e trocar o rei cruel pelo homem escondido na máscara de ferro. A história não depende de grandes mapas de guerra; ela depende de grades, correntes e do silêncio que se compra com medo. A máscara, usada para apagar um rosto, vira a peça mais valiosa do tabuleiro, porque o trono começa a tremer quando o segredo tem corpo.

O reino vive de salão e de farda. Luís XIV ocupa o trono com vaidade e violência, assina ordens com facilidade e confia que guardas e mosquetes resolvem qualquer protesto que surja no pátio. A existência do prisioneiro, mantido em cela e correntes, vira o segredo que pode derrubar a coroa sem derrubar as paredes. Aramis toma a decisão prática de reunir os velhos companheiros e apostar num resgate, mas o impedimento já está dentro de casa: d’Artagnan, agora capitão da guarda, ainda responde ao rei, conhece cada portão do palácio e sabe como uma suspeita cresce quando um soldado decide fazer uma pergunta.

A estreia e o motor do plano

Randall Wallace estreia na direção aqui e também assina o roteiro, e essa dupla função aparece no modo direto como a história se move por lugares concretos. A prisão e o palácio viram polos de uma mesma chantagem moral, e a máscara de ferro deixa de ser ideia abstrata para virar ferramenta de poder. Quando Aramis puxa Athos e Porthos para uma reunião discreta, o gesto parece simples, mas muda o custo imediato: de repente, cada deslocamento exige capa, silêncio e uma rota que evite a patrulha. Um passo mal medido põe o nome deles na boca de um oficial e aumenta a vigilância antes mesmo de o plano ganhar forma.

O filme entende que um golpe sem grandes exércitos depende de etiqueta, e etiqueta é vigilância disfarçada de bons modos. Para a troca não desmoronar no primeiro encontro público, o homem da máscara precisa sustentar o olhar, aceitar o tratamento de Majestade e repetir os gestos que a corte espera, como a reverência medida e o passo que não invade o espaço do rei. Esse aprendizado tem um inimigo invisível, o hábito do corpo. Um prisioneiro tem pressa, um rei não. Quando o palácio se enfeita para um baile de máscaras, a luz de velas e o rumor do salão viram teste, porque qualquer hesitação fica visível.

Lealdade sob a guarda real

O centro dramático não está apenas no disfarce, mas no homem que controla as chaves da violência. D’Artagnan patrulha pátios, dá ordens curtas, confere armas e trata o juramento como rotina, como se a lealdade fosse um uniforme que não pode ser dobrado na gaveta. Quando o plano dos amigos ameaça atravessar o serviço, ele precisa decidir onde ficar, e essa escolha tem endereço, a porta da masmorra, e tem instrumento, a lâmina que sai da bainha quando alguém tenta passar. A cada comando, o risco muda de lugar, porque o rei ganha mais controle sobre homens e corredores, e os amigos perdem tempo e surpresa.

DiCaprio faz dois rostos e o roteiro usa a diferença para manter o conflito de pé. Um Luís XIV ríspido, cercado por conselheiros, parece gostar do som da obediência; o outro homem, saído de anos de prisão, carrega no corpo o hábito de baixar a cabeça antes de falar. A distância entre eles cria perigo na mesma hora.

A máscara como custo político

A aventura se sustenta porque os mosqueteiros não aparecem como super-homens. Athos e Porthos têm o peso da idade nas pernas e no fôlego, e isso altera a forma das fugas por corredores e escadas. Quando precisam atravessar um portão ou dobrar uma guarda em fileira, o filme impõe contas a pagar: uma grade fechada encurta o tempo, uma baioneta erguida obriga a recuar, um mosquete apontado muda o caminho. O humor existe, mas não substitui a urgência, porque a cada choque de metal alguém pode reconhecer uma postura fora do tom do rei, e o disfarce, que era escudo, vira alvo.

O que permanece é a sensação física do metal. A máscara não é só símbolo, é frio no rosto, som duro quando encosta, falta de ar que transforma identidade em punição. Por isso o plano dos mosqueteiros soa menos como fantasia e mais como desespero disciplinado: resolver o problema do trono com a moeda que o palácio entende, aparência e protocolo. A história avança porque alguém quer abrir uma cela, alguém quer fechar uma boca, alguém quer manter a coroa intacta a qualquer preço. No aperto, um homem firma a mão na espada diante de uma porta de pedra da Bastilha, e o preço imediato é ter todos os mosquetes mirando o mesmo lugar.

Filme: O Homem da Máscara de Ferro
Diretor: Randall Wallace
Ano: 1998
Gênero: Ação/Aventura/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★