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Baseado em fatos reais, o suspense psicológico mais controverso da carreira de Alan Parker chega à Netflix Divulgação / Columbia Pictures

Baseado em fatos reais, o suspense psicológico mais controverso da carreira de Alan Parker chega à Netflix

“O Expresso da Meia-Noite” inicia sem ambiguidades morais. William “Billy” Hayes, interpretado por Brad Davis, decide contrabandear haxixe para fora da Turquia movido por pressa, ingenuidade e uma confiança típica de quem acredita que sempre haverá uma saída. A cena no aeroporto, marcada pelo nervosismo crescente e pela trilha insistente de Giorgio Moroder, define o eixo do filme: não se trata de um jovem idealista esmagado por forças externas, mas de alguém que subestima regras alheias e paga por isso. Alan Parker constrói essa introdução de modo direto, quase didático, porque precisa deixar claro que o drama não nasce da injustiça inicial, e sim da desproporção que se instala depois.

A prisão surge como consequência lógica do ato, não como armadilha narrativa. Billy é condenado a quatro anos, uma pena dura, porém compreensível. O desconforto do espectador vem do reconhecimento de que, até esse ponto, o sistema funciona dentro de uma lógica reconhecível. O problema começa quando essa lógica se rompe e a punição passa a operar como instrumento de aniquilação, não de correção.

Instituições sem rosto

O filme foi acusado de atacar a Turquia, mas essa leitura ignora um dado central: as figuras de autoridade que cercam Billy não têm densidade cultural, apenas função institucional. Policiais, juízes e carcereiros formam um bloco impessoal, semelhante ao que se encontra em narrativas carcerárias ambientadas em qualquer país. O que define essas personagens não é nacionalidade, mas o papel que ocupam dentro de uma engrenagem fechada. A hostilidade não é étnica; é estrutural.

Nesse sentido, a presença do personagem vivido por Bo Hopkins, ligado ao consulado americano, reforça a ideia de isolamento absoluto. Ele fala a língua local, transita entre sistemas, mas não oferece proteção real. Sua atuação evidencia a fragilidade do discurso de exceção: fora do próprio território, o cidadão americano não possui privilégios concretos. O filme insiste nesse ponto com rigor quase incômodo, desmontando qualquer fantasia de amparo automático.

A corrosão da mente

O aspecto mais contundente de “O Expresso da Meia-Noite” não está na violência física, mas no desgaste psicológico. A transferência de Billy para o hospital psiquiátrico marca uma virada clara. Ali, a questão deixa de ser cumprir pena e passa a ser preservar a sanidade. A ideia do “bad machine”, repetida ao longo do filme, sintetiza esse conflito: sobreviver mecanicamente ou resistir ao esvaziamento interior.

John Hurt, como Max, encarna o destino de quem perde essa batalha. Seu personagem é a projeção do futuro possível de Billy, um homem que ainda respira, mas já não decide. A atuação de Hurt evita excessos dramáticos e aposta na exaustão contínua, tornando sua presença perturbadora justamente pela normalização do colapso. Randy Quaid, no papel de Jimmy, acrescenta outra camada ao retratar alguém punido de forma absurda por um delito menor, ampliando a sensação de arbitrariedade que domina o espaço prisional.

Fuga e permanência

Quando a sentença de Billy é alterada para prisão perpétua, o filme abandona qualquer resquício de equilíbrio. O surto do personagem diante do tribunal não é um discurso político articulado, mas a reação previsível de alguém que percebe ter sido engolido por um sistema sem válvulas de escape. A partir daí, a narrativa se encaminha para a fuga, mas evita transformá-la em triunfo clássico. Não há plano engenhoso nem sensação de justiça restaurada.

Filme: O Expresso da Meia-Noite
Diretor: Alan Parker
Ano: 1978
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.