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Obra-prima máxima de David Lynch está na Netflix e você não pode perder Divulgação / Paramount Pictures

Obra-prima máxima de David Lynch está na Netflix e você não pode perder

“Veludo Azul” se inicia com um gesto simples e brutal: Jeffrey Beaumont, interpretado por Kyle MacLachlan, retorna à cidade natal após o colapso repentino do pai. Lumberton parece imóvel no tempo, organizada demais para ser real, excessivamente limpa, excessivamente cordial. O filme não perde tempo em sugerir que essa aparência não é um valor, mas um disfarce. A descoberta de uma orelha humana em um terreno baldio não funciona como truque narrativo, e sim como ruptura simbólica: algo foi arrancado do corpo social e agora exige ser ouvido. A partir desse ponto, Jeffrey deixa de ser apenas um jovem curioso e assume a função clássica do observador que cruza uma fronteira moral sem compreender plenamente o custo desse gesto. A investigação que ele inicia não é movida por heroísmo, mas por inquietação, uma pulsão difícil de nomear, mais próxima do desejo do que da justiça.

Submundo, controle e violência

A entrada de Jeffrey no universo de Dorothy Vallens, vivida por Isabella Rossellini, altera radicalmente o tom da narrativa. Dorothy não é um mistério a ser solucionado, mas um campo de forças marcado por submissão, medo e ambiguidade. Sua relação com Frank Booth, personagem de Dennis Hopper, organiza o eixo mais perturbador do filme. Frank não atua como vilão convencional; ele encarna um regime de poder baseado na humilhação e no excesso, um sujeito que fala demais, agride demais, ocupa todos os espaços. Hopper constrói uma presença que dispensa explicação psicológica, porque Frank opera pela lógica da dominação pura. O desconforto nasce justamente da ausência de redenção possível. Não há aprendizado, não há contenção. A violência não é um desvio, mas um método.

Inocência e olhar

Sandy Williams, interpretada por Laura Dern, funciona como contraponto apenas em aparência. Filha de um detetive, ela representa uma curiosidade mais regulada, um interesse pelo estranho que ainda respeita limites. Ainda assim, sua participação revela que a inocência em “Veludo Azul” não é um estado natural, mas uma escolha frágil. Jeffrey oscila entre Sandy e Dorothy porque oscila entre dois modos de ver o mundo: um que ainda acredita em sentido moral, outro que aceita a vertigem do segredo. O filme é rigoroso ao não absolver essa duplicidade. O voyeurismo de Jeffrey não é tratado como acidente juvenil, mas como gesto ativo, uma decisão que o compromete. Assistir, aqui, nunca é neutro.

Forma, som e desconforto

A encenação conduzida por David Lynch rejeita o realismo confortável. A trilha de Angelo Badalamenti cria uma tensão constante entre doçura e ameaça, enquanto canções populares reforçam a sensação de normalidade contaminada. A imagem insiste em cores saturadas e enquadramentos que prolongam o desconforto, não para impressionar, mas para sustentar um estado de alerta permanente. “Veludo Azul” não oferece sínteses morais nem saídas conciliatórias. O que permanece é a sensação de que o mal não se esconde em becos distantes, mas se organiza dentro das estruturas mais banais. Ao terminar, o filme não pede admiração nem repulsa imediata. Exige algo mais incômodo: reconhecimento.

Filme: Veludo Azul
Diretor: David Lynch
Ano: 1986
Gênero: Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.