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Clássico de Hugh Grant volta à Netflix e lembra por que continua irresistível para fãs de comédias românticas Divulgação / PolyGram Filmed Entertainment

Clássico de Hugh Grant volta à Netflix e lembra por que continua irresistível para fãs de comédias românticas


Quando se assiste novamente “Quatro Casamentos e Um Funeral”, a impressão é a de que o filme entende algo muito simples e ao mesmo tempo incômodo sobre pessoas que vivem tentando parecer emocionalmente imunes. Charles, interpretado por Hugh Grant, veste esse ar de despreocupação como quem carrega um casaco leve em pleno verão: está ali para parecer elegante, não para ser útil. A sucessão de cerimônias que atravessam a história funciona como uma roleta social em que a cada giro alguém é exposto, contradito ou surpreendido por impulsos que sempre tentam esconder. A formalidade das situações, cercadas por flores, discursos engessados e expectativas de etiqueta, contrasta com a incapacidade geral de lidar com sentimentos reais, como se todos ali estivessem envolvidos em um rito que ninguém domina, apesar de sua aparente familiaridade.

A aparição recorrente de Carrie, vivida por Andie MacDowell, transforma essa repetição em algo mais delicado. Ela não tem o brilho caricatural típico das comédias românticas posteriores; sua presença é mais sutil e, talvez por isso, mais perturbadora para Charles. Os dois se reencontram nessas celebrações que deveriam ser previsíveis, mas que acabam revelando fissuras íntimas, pequenos lapsos de desejo e dúvidas sobre compromissos que parecem inquestionáveis quando observados de fora. O filme constrói essa dinâmica com uma naturalidade encantadora, revelando como encontros fortuitos reconfiguram convicções que até então pareciam estáveis.

Indecisão, melancolia e o impacto do inesperado

O foco da narrativa está menos no romance em si e mais na forma como esses personagens orbitam a própria indecisão. O grupo que acompanha Charles, interpretado por atores como Kristin Scott Thomas e John Hannah, funciona como um coro irregular que tenta racionalizar o irracional. Cada um deles carrega uma espécie de melancolia discreta, como se fossem sobreviventes de uma guerra emocional que ninguém admitiu travar. Essa atmosfera, por vezes ensolarada e por vezes atravessada por um luto súbito, concede ao filme uma profundidade que escapa aos rótulos fáceis. Quando o funeral surge no meio da sequência de casamentos, ele não interrompe apenas o ritmo; ele reorganiza a percepção do espectador sobre tudo o que veio antes, lembrando que a vida nunca negocia seu timing com nossas convenções sociais.

Há algo quase linguístico na forma como o filme estrutura seus encontros. Cada casamento funciona como uma variação de um mesmo enunciado: personagens tentando formular aquilo que não conseguem dizer diretamente. O humor nasce das falhas comunicativas, das frases interrompidas, dos olhares que denunciam mais do que as palavras suportariam. Essa mecânica revela uma compreensão sutil sobre como sentimentos se formam, hesitam, recuam e insistem, sem que ninguém envolvido tenha pleno domínio sobre o próprio discurso emocional. E talvez seja por isso que o romance entre Charles e Carrie, mesmo tingido de imprecisões morais, pareça plausível. Não se trata da idealização do encontro perfeito, mas da aceitação de que a vida raramente se organiza conforme nossas intenções.

A honestidade afetiva por trás da leveza

Rever “Quatro Casamentos e Um Funeral” hoje oferece mais do que nostalgia. A leveza permanece, mas o que realmente chama atenção é a honestidade com que o filme reconhece a fragilidade das escolhas humanas. Entre votos solenes e improvisos constrangedores, ele desenha um mundo em que ninguém é plenamente coerente, e ainda assim todos tentam avançar com certa dignidade, como quem bebe uma taça de espumante um pouco quente, mas sorri para não comprometer o clima. Essa relação entre desejo e hesitação continua dialogando com qualquer espectador disposto a admitir que a vida adulta é, por vezes, um desfile de indecisões mascaradas por boas maneiras.

Se algo persiste muitos anos após o lançamento é a sensação de que o filme entende a comicidade inerente aos rituais sociais e sabe que, no fundo, é preciso algum desajuste para que as coisas façam sentido. A irregularidade dos encontros, as promessas mal formuladas, a percepção tardia de afeto inesperado: tudo isso desenha um romance imperfeito, mas profundamente humano. Talvez seja essa humanidade que torna o filme tão duradouro, como se nos lembrasse de que a verdadeira graça da vida está justamente naquilo que escapa à liturgia dos eventos cuidadosamente planejados.

Filme: Quatro Casamentos e Um Funeral
Diretor: Mike Newell
Ano: 1994
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★