Adaptação de peça francesa de Jean Poiret, uma das comédias mais aclamadas do cinema chega à Netflix Divulgação / United Artists

Adaptação de peça francesa de Jean Poiret, uma das comédias mais aclamadas do cinema chega à Netflix

A comédia adaptada para o público norte-americano em “A Gaiola das Loucas” parte de um ponto simples: Armand, interpretado por Robin Williams, administra um clube em Miami onde o espetáculo e o exagero são parte da rotina, enquanto divide a casa e a vida com Albert, vivido por Nathan Lane, cuja identidade artística é o eixo de toda a dinâmica doméstica. A estabilidade construída pelos dois, sustentada por acordos tácitos e afetos sedimentados ao longo dos anos, perde o equilíbrio quando Val, filho de Armand e resultado de uma relação antiga com uma mulher, retorna com um pedido que reorganiza tudo: quer se casar com Barbara, interpretada por Calista Flockhart, filha de um político conservador defendido com rigidez por Gene Hackman. A partir desse anúncio, o filme monta uma rede de tensões que obriga Armand e Albert a renegociar a própria existência para caber na expectativa moral da família da noiva.

O roteiro opta por expor essa reorganização de modo direto. Val solicita que Armand esconda a relação com Albert, retire do apartamento os objetos que fazem parte da sua própria história e adote uma postura masculina estereotipada para se adequar à visita dos futuros sogros. O pedido, além de questionável do ponto de vista ético, empurra Albert para uma tentativa desesperada de adaptação: ao invés de desaparecer, resolve vestir a máscara social exigida pelo protocolo do jantar. Lane conduz essa transição com precisão emocional, equilibrando o desconforto crescente de Albert com a necessidade de proteger o relacionamento com Val, mesmo quando esse relacionamento o rebaixa.

A força do filme está justamente nesse atrito entre convivência íntima e convenções públicas. Robin Williams constrói um Armand que tenta controlar uma situação impossível, dividindo-se entre a complacência que oferece ao filho e a irritação silenciosa diante das imposições que desmontam a vida que já tinha organizado. As cenas em que Armand tenta ensinar gestos considerados masculinos a Albert evidenciam o absurdo desse esforço, enquanto expõem a fragilidade das categorias que pretendem definir comportamentos aceitáveis. A participação de Hank Azaria como Agador intensifica essa sensação de caos, já que o personagem circula pela casa como um elemento que evidencia as contradições entre o desejo de normalidade e a pulsação extravagante que marca o cotidiano do casal.

O encontro com os pais de Barbara funciona como o ponto de implosão dessa arquitetura improvisada. Gene Hackman interpreta Kevin Keeley como um homem preso à própria lógica moral, incapaz de compreender qualquer realidade que desvie dos padrões que ele considera corretos. Dianne Wiest, como Louise, atua como amortecedora desse conservadorismo, mas também não consegue lidar com o estranhamento provocado pela presença de Albert em sua versão devidamente adaptada para o papel de mãe tradicional. O jantar ultrapassa o mero embaraço social: transforma-se em uma disputa silenciosa entre a artificialidade construída para agradar os visitantes e a verdade que insiste em aparecer nas fissuras do comportamento de cada um.

O interesse do filme não está em reencenar a superioridade comparativa entre este remake e o original francês, nem em competir com a força dramática de Michel Serrault e Ugo Tognazzi. O que o filme faz, dentro de sua lógica própria, é explorar a deformação produzida quando relações familiares se dobram para satisfazer convenções externas. A comicidade nasce menos dos gestos exagerados e mais do desalinhamento inevitável entre autenticidade e performance social. É nesse ponto que o filme sustenta sua relevância: ao transformar uma cena de jantar em laboratório de conflito moral, expõe a precariedade das normas que tentam domesticar afetos.

Quando a noite termina, o esquema montado pela família já não tem como se sustentar e qualquer tentativa de preservar a fachada construída se mostra inútil. O que resta é a evidência de que a verdade, mesmo disfarçada, encontra um modo de atravessar as convenções. E esse atravessamento, mais do que o riso provocado pelo desastre social, é o que confere ao filme sua permanência.

Filme: A Gaiola das Loucas
Diretor: Mike Nichols
Ano: 1996
Gênero: Comédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.