A brutalidade de “Faça Ela Voltar“ não funciona como um artifício para chocar o público, mas como a espinha dorsal de uma narrativa que encara a violência com a frieza de um diagnóstico. Logo nos primeiros minutos, a rotina de Daniel, vivido por Jonah Wren Phillips, e de sua meia-irmã Ruby, interpretada por Aisha Wilkinson, é abruptamente deslocada depois da morte do pai. O deslocamento não se reduz a um luto inicial: a chegada à casa onde vão viver sob a tutela de uma nova responsável cria um ambiente em que cada gesto e cada silêncio funcionam como sinais de alerta. A figura de Helen, interpretada com vigor por Sally Hawkins, gera uma tensão que não se explica de imediato, mas cuja lógica se impõe progressivamente.
O filme conduz o espectador por um caminho sem concessões, em que a sensação de ameaça cresce à medida que Daniel tenta compreender a dinâmica daquela nova casa. A baixa visão de Ruby torna essa investigação ainda mais inquietante. Ela percebe alterações de humor, ruídos e ausências que Daniel tenta racionalizar sem sucesso. A diretora de fotografia utiliza os espaços estreitos e a pouca luz para estruturar um ambiente em que a percepção é sempre parcial. Essa escolha não pretende ornamentar a narrativa; ela reforça a instabilidade emocional das personagens, principalmente das crianças que tentam decifrar um mundo que não dominam.
A violência que se impõe mais tarde não atua como clímax gratuito, mas como o desdobramento natural de um processo de manipulação longo, conduzido por Helen. Hawkins constrói a personagem como alguém cuja aparente fragilidade serve de fachada para uma autoridade rígida. A atriz, conhecida por papéis mais afetuosos, emprega essa bagagem para criar um contraste perturbador: o tipo de pessoa que sabe exatamente como ocupar um espaço emocional e submetê-lo à sua vontade. Quando a história avança, a casa se transforma num cenário de clausura em que Daniel e Ruby precisam decidir entre obedecer ou confrontar, cientes de que qualquer erro pode ser fatal.
A direção de Danny e Michael Philippou trabalha com um rigor que se distingue da maior parte do horror contemporâneo. Os irmãos eliminam atalhos, recusam a tentação de facilitar o percurso do público e investem numa construção que enfatiza decisões morais difíceis. A violência envolvendo crianças não aparece como provocação vazia, mas como expressão de relações de poder assimétricas que, na vida real, deixam marcas profundas. Em vários momentos, a narrativa aposta em silêncios e pausas que obrigam o espectador a preencher lacunas incômodas. É aí que o filme demonstra maturidade: não tenta explicar tudo, mas também não se esconde atrás de ambiguidades produzidas gratuitamente.
A progressão da trama alcança um ponto em que os elementos sobrenaturais entram em cena sem alterar a lógica interna do filme. O ritual registrado em imagens antigas sugere uma tradição cujo significado não é plenamente esclarecido, mas essa ausência não compromete a compreensão geral. O sobrenatural funciona como catalisador das tensões já existentes. Daniel, marcado por um passado instável, torna-se o alvo ideal de forças que exploram fragilidades humanas antes de se manifestarem de modo explícito. Ruby, por sua vez, tenta equilibrar cautela e coragem, consciente de que suas limitações sensoriais não reduzem sua capacidade de perceber a dimensão verdadeira da ameaça.
O acúmulo de violência física e emocional cria um efeito que extrapola o susto e o desconforto imediato. O filme trabalha com a ideia de que certos ambientes familiares podem se converter em lugares onde a vulnerabilidade infantil é explorada deliberadamente. Essa abordagem torna a narrativa ainda mais contundente, porque a agressão não é episódica; ela faz parte da rotina e mina qualquer possibilidade de estabilidade para Daniel e Ruby. Quando o desfecho se aproxima, a tensão não se resolve por meio de um gesto heroico ou de uma explicação reveladora, mas por um movimento que combina perda, resistência e o peso de escolhas que não se desfazem facilmente.
“Faça Ela Voltar“ alcança impacto justamente por evitar atalhos emotivos. O filme se sustenta na capacidade de expor a crueldade sem glamour e na recusa de transformar seus personagens em peças descartáveis. O horror aqui não é um exercício de estilo; é uma demonstração de como forças externas e internas moldam subjetividades em momentos de fragilidade absoluta. Essa perspectiva garante ao longa um lugar singular dentro do gênero, não por querer reinventá-lo, mas por tratá-lo com a seriedade necessária para que suas implicações ultrapassem a sala de cinema.
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