O riso envergonhado (ou: xenofobia estrutural, parte 2)

O riso envergonhado (ou: xenofobia estrutural, parte 2)

Quando criança, eu ria de piadas de português. Ria também das de argentino. Não porque fossem boas (nunca foram, sejamos honestos), mas porque parecia natural. Estavam ali, nos programas de humor da televisão, nos papos dos adultos e até mesmo nas brincadeiras entre os amigos da escola.

Cresci achando normal rir de alguém por ser de outro lugar. Nunca passou pela minha cabeça que aquilo tinha outro nome: xenofobia.

Essa inocência coletiva é curiosa. Porque, no fundo, fomos treinados a achar graça em submeter o outro à caricatura. O português, coitado, sempre era o burro. O argentino, invariavelmente, o arrogante. E ninguém via maldade nisso. Era só brincadeira — e aqui, entre gordas aspas. Mas a fronteira entre a piada e a estrutura é mais fina do que parece. Quando você cresce ouvindo que tudo bem rir de um povo inteiro, está aprendendo a naturalizar o preconceito — ainda que embrulhado em risadinhas.

Não precisa ser extremista para embarcar nesse tipo de discurso. Essas piadinhas se repetiam meio que no automático. Era o senso comum, a cola social. Os que realmente acreditam em ideias de superioridade nacional apenas dão megafone a algo que já estava incrustado na sociedade: a mania de achar que o outro é sempre inferior, ridículo ou suspeito. O “nós contra eles” não nasceu na semana passada; ele já estava sendo cultivado, com regador de piadas, no quintal da infância.

E, claro, nada disso me parecia pessoalmente grave enquanto eu vivia apenas no Brasil. Lá, era “nossa cultura”. Lá, eu fazia parte do “nós” que ria dos “eles”. Só aqui, deste lado do Atlântico, descobri como é ser o alvo. Quando alguém ri de mim por eu ser brasileiro, a mesma engrenagem se revela, só que em posição invertida. A gargalhada que antes parecia leve agora dói, porque entendo na pele a lógica por trás dela: reduzir o outro a um estereótipo confortável.

Quanto mais a gente viaja, mais isso fica evidente. Viajar é um curso prático de empatia. Você descobre que os portugueses não são burros, os argentinos não são todos metidos, os brasileiros não são preguiçosos. Descobre que, em Lisboa, tem muito português que tira sarro do nosso “jeitinho” sem imaginar que, do outro lado, machuca. Descobre que, em Buenos Aires, tem argentino cansado de ser acusado de soberba coletiva. Descobre, principalmente, que generalizar é sempre injusto — e que é muito mais fácil rir do outro do que olhar para nossas próprias fragilidades.

A xenofobia estrutural tem esse truque perverso: ela se esconde naquilo que chamamos de humor. Quem nunca ouviu a frase “é só uma piada, não precisa levar a sério”? Pois é. Mas a escolha do alvo já denuncia a hierarquia invisível: rir do português é aceitar que o colonizador pode ser rebaixado sem que isso abale o sistema; rir do argentino é reforçar uma rivalidade que nos distrai do que realmente importa.

O problema é que esse tipo de riso, aparentemente inofensivo, vai alimentando um caldo ideológico perigoso. Quando, de repente, surge um líder político disposto a culpar imigrantes, estrangeiros, refugiados por todos os males do país, parte da plateia já está treinada para rir junto. A piada então vira discurso de ódio com a mesma naturalidade com que a água vira gelo no congelador.

Hoje, quando escuto alguém soltar uma dessas “inocentes”, já não consigo rir. Não porque tenha me tornado o fiscal do humor — muito pelo contrário, continuo acreditando que rir é uma das formas mais nobres de resistência humana. Mas porque agora entendo o mecanismo. E, quando você entende, não tem como fingir que não viu.

É curioso como o passaporte, esse documento em forma de livrinho, pode ser também um manual de empatia. Cada carimbo que colecionamos é uma lente nova para enxergar o mundo. Quanto mais atravessamos fronteiras, mais percebemos a delicadeza de ser estrangeiro — e mais nos incomoda quando alguém transforma essa condição em piada. Viajar é, no fundo, um curso completo de alteridade.

E talvez esse seja o antídoto possível: rir menos dos outros e rir mais de nós mesmos. Não aquele riso autodepreciativo que reforça estereótipos, mas o riso que desmonta o sistema, que escapa pela brecha da seriedade. A cada viagem, aprendo que o mundo é grande demais para caber em piadinhas de salão. E, ao mesmo tempo, pequeno demais para que possamos continuar insistindo nelas sem consequências.

Se na infância eu ria de português e de argentino, hoje rio de mim — de como um ex-menino caipira do interior paulista precisou atravessar oceanos para perceber o óbvio: não existe graça em reduzir o outro. A verdadeira piada é que um dia achamos tudo isso normal.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.