Pode-se tomar a velhice sob diversos ângulos. O assunto se tornou tabu num mundo em que a juventude é o capital mais valorizado numa pessoa. A sociedade contemporânea compra quase tudo — beleza, sucesso, fama, amor verdadeiro —, mas nem o cirurgião plástico mais talentoso consegue tirar vinte, trinta, quarenta anos da cara de alguém sem ou mutilar o infeliz ou dar-lhe uma nova identidade, perceptível pela incapacidade de mover certos músculos do rosto, por lábios inflados como a natureza nunca pudera fazer ou narizes minúsculos, sem ossos e, então, tem-se um quadro muito pior que o de antes. Os protagonistas de “O Clube do Crime das Quintas-Feiras” evitam o tédio reunindo-se uma vez por semana para especular acerca de crimes sem solução, e desses convescotes vem um palpite certeiro para iluminar um mistério. Chris Columbus aposta na objetividade, e a adaptação de Katy Brand e Suzanne Heathcote para o romance de ficção policial homônimo de Richard Osman, mesmo que pouco inventiva, atinge a meta.
Velhinhos simpáticos são meio caminho para se fazer uma boa comédia, e Columbus cerca-se dos melhores. Cooper’s Chase, um asilo de luxo na fictícia vila costeira de Fairhaven, no condado de Kent, nos arredores de Londres, abriga Elizabeth, Ron, Ibrahim e a recém-chegada Joyce, cada qual com uma história. Elizabeth, uma ex-espiã que se apresenta como especialista em relações internacionais, lidera o grupo e conduz a pauta. Na abertura, eles deliberam sobre a morte de uma mulher que despenca de uma janela depois de ser esfaqueada, pouco antes de o companheiro aparecer. Era 11 de maio de 1973, eles desfrutavam da juventude e a felicidade estava ao alcance das mãos; agora, eles tentam conviver com suas limitações e com as tantas ausências, dos mortos e dos vivos. Elizabeth é casada com Stephen, o ex-editor sofrendo de Alzheimer em estágio avançado vivido por Jonathan Pryce, e ela mesma tem seus dias ruins, mas diante da planilha com fotos e diagramas do caso em tela, volta aos áureos tempos de MI5. Seu faro diz-lhe que existe algum ponto por ser mais bem explicado na ocorrência e ela não está disposta a largar o osso tão cedo.
Quando Donna de Freitas, a jovem policial responsável por patrulhar Fairhaven, aparece para dar instruções sobre golpistas na pele de funcionários da companhia de luz, ela encontra, afinal, a ajudante que faltava. O diretor recorre à fórmula imbatível de contrapor a experiência paralisada de Elizabeth à energia um tanto confusa de Donna para manter o público atento, e aos poucos a magia começa a acontecer. Helen Mirren e Naomi Ackie protagonizam as cenas mais divertidas e relevantes do longa, mas Columbus não deixa-se levar pela empolgação e tira todo o proveito que consegue de seus ótimos atores. Joyce, a enfermeira aposentada de Celia Imrie, oferece respiros cômicos na medida, ao passo que Pierce Brosnan, como Ron, e o Ibrahim de Ben Kingsley preenchem uma ou outra lacuna narrativa com naturalidade. O quarteto de veteranos, sobretudo os oscarizados Mirren e Kingsley, colocam em prática o que são obrigados a fazer de tempos: conferir refinamento shakespeariano a um filme pipoca. Críticos agradecemos.
★★★★★★★★★★