Autor: Giancarlo Galdino

Um faroeste sem deserto — e com mais culpa do que pólvora (na Netflix) Divulgação / SPWA

Um faroeste sem deserto — e com mais culpa do que pólvora (na Netflix)

Entre falésias de Donegal e a violência dos anos 1970, “Na Terra de Santos e Pecadores” acompanha Finbar Murphy, matador cansado que tenta aposentar-se sem escapar do IRA. Robert Lorenz conduz a história com mão de produtor acostumado a Clint Eastwood, aposta em Liam Neeson e deixa o passado voltar em 1974 com um atentado que muda a caça. O texto aponta a frustração com a promessa religiosa do título, mas registra como o elenco e os detalhes de cena seguram o espectador até a conclusão.

No Prime Video, uma mãe tenta “fabricar” a filha perfeita — e o projeto vira terror doméstico Divulgação / Amazon Prime Video

No Prime Video, uma mãe tenta “fabricar” a filha perfeita — e o projeto vira terror doméstico

A ambição de Aurora Rodríguez Carballeira por uma maternidade “perfeita” conduz o filme de Paula Ortiz, que revisita uma história apagada após a Guerra Civil Espanhola. Criada com mãos de ferro, Hildegart surge como prodígio socialista, autora precoce e voz de ideias que atravessam “Sexo e Amor”. O roteiro acompanha o projeto de eugenia, a busca por um pai que não reivindique paternidade e o controle obsessivo da filha, até a virada em que a jovem passa a pensar por conta própria, precipitando o desfecho.

No Prime Video, um filme que mistura desejo, desconforto e aquela sensação de “tem algo errado aqui” Divulgação / Lionsgate

No Prime Video, um filme que mistura desejo, desconforto e aquela sensação de “tem algo errado aqui”

Erotismo não é festa, mas o fluido que azeita a engrenagem das relações, frio e mecânico. Estreando precocemente na direção, o ator e modelo Damian Hurley, 21 anos, está verde ainda para saber que o gozo é sempre eivado de hipocrisia, com parceiros lutando contra o arquétipo de imundície e corrupção e ávidos por ideais de pureza que nunca hão de existir. “Estritamente Confidencial” é um exemplo claro de filme que chama atenção menos pela história que pelas notas de rodapé.

Dois atores, duas idades, um mesmo homem: a Netflix tem um coming-of-age que parece espelho Divulgação / Netflix

Dois atores, duas idades, um mesmo homem: a Netflix tem um coming-of-age que parece espelho

Desde tenra idade, a solidão pode ser a companheira mais fiel de alguém, em especial quando a vida lhe nega o que qualquer um ganha sem ter de pedir. Ausências compõem a identidade de pessoas como Kefas, o sobrevivente orgulhoso de um inferno peculiar. O protagonista de “Uma Carta à Minha Juventude” vence a orfandade numa instituição para menores, mas essa incômoda lembrança não o deixa em paz. Biográfico, o relato do indonésio Sim F tem uma beleza incomum, típica do velho cinema.

Na Netflix, uma história que liga duas palavras que ninguém quer juntar: infância e escravidão Divulgação / Roadside Attractions

Na Netflix, uma história que liga duas palavras que ninguém quer juntar: infância e escravidão

À tragédia da imigração, soma-se um dado ainda mais perverso. Alimentado por corrupção e negligência do poder público, a escravatura no século 21 alicia em todo o mundo outros doze milhões de crianças como mão-de-obra abundante e barata para empresas clandestinas ou não, eixo em torno do qual move-se “A Cidade dos Sonhos”. Mohit Ramchandani joga luz sobre esse escândalo, óbvio, mas ignorado.