Autor: Enio Vieira

Petra Costa e as imagens do Brasil atual

Petra Costa e as imagens do Brasil atual

Há uma boa novidade no cinema brasileiro recente. A cineasta Petra Costa vem construindo uma obra notável e de rara força interpretativa. Seu olhar é profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, voltado para as urgências objetivas do presente. As imagens iluminam zonas obscuras do que ainda se pode chamar de vida nacional, num gesto que lembra a frase de Goethe tão cara a Theodor Adorno: “Destinado a ver o iluminado, não a luz”. O iluminado, no caso, são os objetos políticos do país.

40 anos do primeiro disco da Legião Urbana Maurício Valladares / Divulgação

40 anos do primeiro disco da Legião Urbana

A estreia da Legião Urbana em 1985 foi com um disco de capa branca, austera e emblemática. A obra representa um marco histórico de uma virada cultural no Brasil. O país tentava reaprender a respirar após duas décadas de sufocamento. Pois a ditadura militar, enfim, dava lugar à redemocratização, com o nascimento de novos atores sociais. Mas, como toda transição, essa também é ambígua, entre a euforia e a frustração, o desejo de futuro e a herança pesada de um passado recente.

Jorge Amado e a volta da narrativa da nação Foto / Bernard Gotfryd

Jorge Amado e a volta da narrativa da nação

A obra de Jorge Amado ocupou ao longo de décadas uma posição curiosa na literatura brasileira. Simultaneamente foi consagrada pelo grande público e tratada com reticência por boa parte da crítica. Os romances conquistaram leitores aqui e em todo o mundo, mas, em muitos círculos intelectuais, eram vistos como folclorizantes, populistas ou datados por conta do viés político. A situação tem mudado sob novas lentes, com reconhecimento de sua importância histórica e o resgate da proposta narrativa. Um projeto literário que, no fundo, sempre enfrentou o desafio de imaginar o Brasil enquanto nação.

Raphael Montes: o autor como produtor na era digital Thais Alvarenga / Site Oficial

Raphael Montes: o autor como produtor na era digital

O escritor Raphael Montes incomoda muita gente. Pode ser comparado à imagem do bode no meio da sala. O desconforto está presente em circuitos literários e intelectuais, onde se defende a existência de guardiões da linguagem, distantes do ruído dos algoritmos e das hashtags. Montes rompe com essa imagem, usando método, lucidez e certo deleite. Com apenas 34 anos, oito romances e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, ele é um best-seller e um sintoma do estado de coisas.

O bordado africano de Mia Couto Foto / Companhia das Letras

O bordado africano de Mia Couto

Existe hoje um mercado muito ativo de livros, autores e leitores no chamado Atlântico Sul. Um vai-e-vem em língua portuguesa, formando um triângulo literário entre europeus, brasileiros e africanos. Essa circulação de ideias, experiências e formas narrativas tem produzido uma constelação de obras que escapam dos antigos centros coloniais e renovam o idioma comum com vozes múltiplas e enraizadas em realidades muito distintas.