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Os dilemas existenciais, tão comuns na vida do mais ordinário dos ordinários, nos tiram do prumo ao se prestar como uma espécie de prova de fogo, a fim de descobrir onde somos capazes de chegar em busca de um ideal, de uma convicção, de um sonho. A pobre natureza humana tem a necessidade de que lhe permitam deixar o rigor do mundo, a austeridade da existência, e partir para uma dimensão em que tudo soe mais genuíno, mais racional, em que a vida mesma faça mais sentido — ainda que por um tempo limitado, ainda que esse cenário só exista para aqueles que o planejam. As grandes transformações sociais começam dentro de cada homem, daí ser impossível, à luz do pensamento de gênios como o sociólogo alemão Max Weber, uma pretensa salvação da humanidade. A humanidade só se salvaria, irredutivelmente, se cada um de nós se desse conta de suas faltas e se emendasse, o que, é uma lástima, nunca vai acontecer. Cada um é responsável por sua própria redenção — ou sua própria desdita —, sendo sempre possível, evidentemente, arrepender-se, de coração, até o último segundo, tomar um caminho diferente e refazer a vida tanto como possível. No entanto, nunca satisfeito com o mundo da forma como se lhe apresenta, o ser humano se devota a combater os demônios que o atacam, tenham a cara que quiserem ter. Visando a libertar o povo de seu país de uma sucessão de governos autocráticos, um homem se torna membro de uma guerrilha, com o propósito de assaltar bancos e repartir o dinheiro entre quem precisa. O uruguaio José Alberto Mujica Cordano, ex-paramilitar, ex-preso político, ex-mandatário maior de sua terra e hoje apenas um humilde agricultor familiar e sossegado octogenário, retirado ao bucolismo de seu pequeno sítio, é o protagonista de “A Noite de 12 Anos” (2018), do diretor Álvaro Brechner. Esse e mais cinco títulos, lançados entre 2020 e 2014, todos no acervo da Netflix e com alguns prêmios na algibeira, não merecem ser relegados ao ostracismo.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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