Matthew Perry tenta conseguir trabalho como ator em Los Angeles quando descobre que sua facilidade para fazer os amigos rirem também pode abrir portas profissionais. É desse começo, anterior à fama nos anos 1990, que parte “Aquele Sobre Matthew Perry”, série documental de 2026 dirigida por Mary Robertson. Em três episódios, familiares, amigos e antigas namoradas reconstituem sua carreira e a convivência com a dependência química. A pergunta que acompanha os depoimentos é dolorosa. Como ajudar alguém tão querido quando o sucesso, o dinheiro e o apoio das pessoas próximas não bastam para mantê-lo bem?
Perry aparece em imagens de arquivo, enquanto sua irmã, Mia Perry Bowick, e amigos de longa data, entre eles Roger Castillo e David Pressman, contam o que viveram ao seu lado. São pessoas falando das próprias experiências, sem atores interpretando seus papéis. O personagem de ficção que atravessa essa história é Chandler Bing, interpretado por Matthew Perry em “Friends”. A proximidade entre o jeito do ator e o do personagem ajuda a explicar a contratação. Já o que acontecia fora do estúdio exige ouvir quem continuava por perto depois das gravações.
Uma infância entre dois países
Criado pela mãe no Canadá após a separação dos pais, Matthew viajava para a Califórnia para visitar o pai, o ator John Bennett Perry. Ainda pequeno, precisava enfrentar sozinho algumas dessas viagens. São lembranças que ajudam a conhecer sua infância, embora não ofereçam uma explicação suficiente para os problemas que enfrentaria adulto.
Robertson reúne fotografias e vídeos familiares para recuperar esse período. O menino brincalhão, que depois buscaria emprego em Hollywood, pertencia a uma família com afeto, ausências e relações que continuaram mudando. A diretora acerta ao deixar espaço para essas contradições. Uma biografia fica menos convincente quando cada episódio da infância parece ter sido escolhido apenas para anunciar uma tragédia futura.
Mia nasceu quando Matthew já era adolescente. Nas lembranças da irmã, ele surge carinhoso, engraçado e capaz de tornar a convivência difícil durante os períodos de adoecimento. Ela fala com amor, mas também com o cansaço de quem acompanhou tentativas de recuperação e voltou a temer por sua saúde. Esse depoimento dá à história uma dimensão que as imagens de um astro sorridente dificilmente poderiam oferecer.
Antes de Chandler conseguir o emprego
Em Los Angeles, Perry encontra outros jovens tentando trabalhar como atores. Roger Castillo e David Pressman recuperam os anos em que ele fazia graça entre amigos, procurava oportunidades e ainda precisava convencer produtores de que merecia uma contratação. Para quem conhece apenas o sucesso posterior, é bom lembrar que Chandler não veio junto com a mudança para a Califórnia.
Um dos episódios mais saborosos envolve o roteiro de “Friends”. Antes de fazer sua própria audição, Perry já ajudava colegas a ensaiar para o mesmo programa. Eles percebiam nele algo muito parecido com Chandler e recorriam à sua familiaridade com aquele tipo de fala. Havia uma ironia na situação. O ator que ainda buscava emprego estava preparando concorrentes para interpretar um sujeito que lembrava ele próprio.
A contratação transforma sua vida profissional. Chandler Bing, com suas piadas e seu desconforto diante dos outros, oferece a Perry um papel em que seu ritmo de comédia ganha espaço. O público passa a reconhecer aquele rosto, e o trabalho deixa de depender da próxima audição. A fama chega, mas os problemas pessoais permanecem.
O sucesso visto de perto
Robertson dedica atenção a “Friends” sem permitir que a série ocupe toda a biografia. A escolha é acertada porque os entrevistados têm outras histórias para contar. Eles conheceram o rapaz antes do reconhecimento internacional e acompanharam um adulto que podia ser generoso, divertido e frustrante dentro da mesma relação.
As antigas namoradas acrescentam lembranças importantes. Seus relatos preservam o carinho por Perry sem apagar suas falhas. Não há necessidade de transformar cada relacionamento em escândalo para mostrar que conviver com ele podia ser difícil. Ao falar de afeto e decepção, elas ajudam a conhecer alguém que o público costumava receber em casa durante poucos minutos de uma comédia.
Há também espaço para rir. O próprio Perry sabia brincar com os fracassos profissionais e com a distância entre suas ambições e os trabalhos que havia conseguido. Essas passagens fazem falta em muitas biografias de pessoas que morreram cedo, nas quais toda recordação acaba coberta de solenidade. Aqui, o jeito de fazer graça permanece reconhecível mesmo quando os depoimentos ficam mais dolorosos.
Quando ajudar também traz desgaste
O consumo de álcool, o uso de medicamentos e as tentativas de tratamento passam a ocupar o centro do relato. Perry procura ajuda, enfrenta recaídas e precisa conciliar os cuidados com a carreira. Quem o acompanha também vive essa instabilidade. Cada nova tentativa traz esperança, mas os familiares e amigos não têm como garantir o resultado.
É nessa parte que as entrevistas ganham mais força. Os participantes falam de situações vividas durante anos, com o desgaste de repetir conselhos, oferecer apoio e voltar a se preocupar. O carinho por ele permanece, embora ninguém consiga apresentar uma solução capaz de encerrar o sofrimento. Robertson respeita essa dificuldade e permite que os entrevistados reconheçam a própria impotência.
Os três episódios poderiam ser um pouco mais curtos. Algumas falas retomam sentimentos que já haviam sido bem apresentados, e a repetição diminui o ritmo. Ainda assim, a qualidade dos depoimentos sustenta o interesse. Há diferenças entre a lembrança da irmã, a experiência de um amigo e o relato de uma ex-namorada, mesmo quando todos falam do mesmo período.
“Aquele Sobre Matthew Perry” merece atenção por reunir essas pessoas sem exigir que elas escondam as dificuldades em nome da homenagem. Mia fala também do apoio oferecido pelo pai ao filho e explica que a saúde dele impediu sua participação nas entrevistas. Cabe a ela contar parte dessa convivência. Diante da câmera, a irmã recorda as brincadeiras, reconhece as falhas de Matthew e relata o que a família fez para ajudá-lo.

