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Bula AchadosUma venda sem despedida

Denis Diderot vendeu sua biblioteca e não precisou esvaziar as estantes. A compradora, Catarina II da Rússia, permitiu que ele continuasse com os livros e ainda lhe atribuiu um pagamento anual para cuidar deles. O negócio foi fechado em 1765. Para alguém obrigado a escolher o que vender, encontrar um comprador que paga e deixa a mercadoria em casa já seria uma sorte considerável. A nomeação para guardião completava o acordo.

O motivo era doméstico. Diderot precisava de dinheiro para o dote de sua filha, Angélique. A Biblioteca Nacional da França registra essa necessidade na cronologia do escritor. Vender uma coleção reunida ao longo dos anos era uma maneira de obter a soma. Para um homem que passava a vida escrevendo, porém, significava negociar também uma parte de seus instrumentos de trabalho.

A notícia chegou à imperatriz por intermédio de Friedrich Melchior Grimm, amigo de Diderot e figura central na circulação da cultura francesa pelas cortes europeias. Catarina comprou a biblioteca. Em sua biografia do filósofo, John Morley conta que ela acrescentou ao preço uma remuneração anual de mil libras francesas pela custódia dos volumes. O antigo proprietário passava a receber pelo cuidado de uma coleção que conhecia melhor do que qualquer funcionário recém-contratado.

Morley registra ainda um adiantamento equivalente a cinquenta anos desse pagamento. A soma impressiona, mas convém não misturá-la ao valor de compra dos livros, como acontece nas versões rápidas do episódio. Eram componentes distintos do patrocínio. Também não se tratava de libras esterlinas, e converter o montante numa fortuna de hoje sem explicar a conta acrescentaria uma precisão que a história não precisa fingir.

O acordo de 1765Livros em casaA venda separou a propriedade da coleção de seu uso imediato.
Catarina II · compra a bibliotecaDiderot · conserva os volumes para consultaCustódia · recebe remuneração anual
Sobre os registros

John Morley registra mil libras francesas por ano pela custódia e um adiantamento equivalente a cinquenta anos. Esse pagamento é distinto do preço de compra do acervo.

O ano da venda traz uma coincidência instrutiva. Em 1765 saíram os dez últimos volumes de texto da “Encyclopédie”, empreendimento que consumira grande parte da energia de Diderot. A autorização de publicação havia sido retirada em 1759. Os volumes apareceram com indicação falsa de lugar de impressão, como registra a cronologia da BnF. O escritor negociava sua biblioteca particular enquanto concluía um trabalho cuja própria circulação exigia acomodações com a censura.

É fácil entender por que o acordo russo chama atenção. Numa venda comum de livros, o dinheiro entra e as caixas saem. Nesse caso, a nova proprietária comprou também a possibilidade de adiar a separação entre leitor e biblioteca. Para Diderot, a operação preservava o uso cotidiano de um acervo que já tinha valor de troca. A diferença entre possuir um livro e poder consultá-lo deixava de ser uma questão abstrata.

Catarina acompanhava com interesse o projeto da “Encyclopédie” e os filósofos franceses. O apoio tinha, portanto, um destinatário conhecido e uma dimensão pública. Não era o resgate casual de um desconhecido. Uma soberana podia associar seu nome ao trabalho intelectual europeu sem abandonar, por isso, o poder que exercia. A generosidade do gesto não elimina essa relação desigual, assim como a desigualdade não torna o dinheiro recebido menos concreto.

Diderot visitou a corte em São Petersburgo em 1773 e 1774. O encontro integra uma relação que foi além da compra de livros. Conforme a Stanford Encyclopedia of Philosophy, seus escritos políticos tardios, entre eles as observações sobre o programa de reformas da imperatriz, assumiram posições críticas em relação à hierarquia e à distribuição do poder. Receber proteção de uma monarca não encerrou suas perguntas sobre a autoridade.

Talvez por isso o episódio mereça ser contado com alguma demora. Reduzido a uma anedota de escritor sortudo, perde o problema familiar, o trabalho editorial e a política do patrocínio. Transformado apenas numa demonstração de dependência, perde a solução engenhosa que preservou uma biblioteca nas mãos de quem a usava.

Diderot morreu em 1784. O adiantamento de cinquenta anos ultrapassou largamente o tempo que lhe restava. Durante a vida, o que ele ganhou foi mais imediato e menos vistoso. Poderia procurar um volume que conhecia, abri-lo e trabalhar. A biblioteca tinha mudado de proprietária. O leitor não precisava mudar de cadeira.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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