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Bula AchadosUma expedição doméstica

Xavier de Maistre precisava de 36 passos para contornar o quarto, seguindo bem perto das paredes. Ainda assim, anunciou uma viagem de 42 dias. Havia uma cama, uma poltrona, uma mesa, quadros. O percurso podia ser feito em linha reta, na diagonal ou em zigue-zague, embora o viajante tivesse o hábito de interrompê-lo ao encontrar um assento confortável. Desse território modesto saiu “Viagem à roda do meu quarto”, um livro em que chegar à porta nem sempre merece prioridade.

O ponto de partida foi uma punição militar. Em 1790, depois de um duelo com um companheiro de armas, o jovem oficial recebeu 42 dias de prisão em Turim. Pôde cumprir a pena em casa. A cidade pertencia ao Reino da Sardenha, cujo exército Maistre integrava. Nascido em Chambéry, na Savoia, ele ainda estava longe de se tornar o escritor lembrado por essa expedição sem deslocamento.

A situação forneceu a matéria do livro, mas convém separar o tempo da pena do tempo da escrita. Segundo a apresentação da editora francesa Sillage, a redação foi concluída em 1794. A Treccani registra a publicação em Lausanne, em abril de 1795, por iniciativa do irmão Joseph, com a indicação fictícia de Turim, 1794. Essa diferença ajuda a entender por que as duas datas aparecem nas referências à obra.

No relato, o narrador trata a excursão doméstica com a solenidade de quem acaba de abrir uma rota desconhecida. Recomenda o método aos pobres e aos ricos, aos doentes e aos preguiçosos. A ausência de despesas deve agradar especialmente aos ricos, observa. Não será necessário enfrentar ladrões nem precipícios. O leitor recebe garantias suficientes para uma aventura cujo maior obstáculo talvez seja a vontade de permanecer deitado.

Logo surge, porém, a condição menos agradável dessa comodidade. O narrador admite que não pode sair quando deseja. Ao comentar o duelo, expõe uma contradição dos costumes de honra. A lei pune quem aceita o confronto, enquanto o meio social pode desprezar quem o recusa. O humor preserva essa pequena dificuldade jurídica e moral dentro de um livro que parece, à primeira vista, ocupado apenas em desfrutar a mobília.

A descrição do quarto imita os cuidados de um relato geográfico. Há orientação, latitude e medida. Os 36 passos correspondem à volta pelas paredes, não ao comprimento de cada lado. Maistre logo abandona qualquer compromisso com a eficiência do trajeto. Entre a mesa e a porta, uma poltrona pode oferecer razões suficientes para adiar a chegada. A narrativa acompanha essa disposição e se permite demorar onde um inventário passaria depressa.

As medidas da viagem36passos de contornoNo capítulo 4, o narrador mede a volta do quarto rente às paredes. O caminho admite desvios.
42 dias · duração da pena e da viagem narrada1794 · conclusão da redação1795 · publicação em Lausanne
Por que também aparece a data de 1794?

A Treccani registra que a edição publicada em Lausanne em abril de 1795 trazia a indicação fictícia de Turim, 1794. O desenho acima representa a diferença entre contorno e percurso; não reconstitui a planta do quarto.

A cama leva a pensamentos sobre nascimento, amor e morte. Um retrato mobiliza lembranças. Ao limpá-lo, o narrador vê reaparecerem os traços de uma mulher e se deixa absorver pelo que a imagem devolve. O movimento físico é mínimo, mas a passagem de um objeto a outro altera o assunto e a temperatura da prosa. A graça inicial comporta saudade e perda, sem que seja preciso anunciar uma mudança de gênero.

Há também uma divertida divisão de tarefas entre a alma e a parte animal do homem. Enquanto uma se entrega a grandes pensamentos, a outra executa serviços cotidianos, nem sempre com bons resultados. O exemplo da leitura distraída é familiar. Os olhos continuam percorrendo as linhas, a página termina e nada ficou na cabeça. A teoria extravagante ganha força porque descreve uma experiência bastante comum.

O quarto, aliás, não está separado das relações sociais. Joannetti, o criado, participa da rotina e conhece os expedientes do patrão para adiar a hora de levantar. Sua presença dá uma medida concreta do conforto disponível ao viajante. A facilidade com que este recomenda a própria experiência convive com o trabalho de alguém que prepara suas condições. É uma companhia suficientemente discreta para ser subestimada, mas indispensável ao funcionamento dessa casa.

O castigo terminou; o livro continuou encontrando leitores. Sua invenção depende menos da proibição de sair do que do modo de acompanhar uma atenção que se desvia. A porta está ali desde o começo. Antes de alcançá-la, Maistre ainda tem alguma coisa a observar na poltrona.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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