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Bula AchadosUm arquivo involuntário

Uma cópia datilografada do diário de Mikhail Bulgákov ficou guardada na Lubianka, sede da polícia política soviética. O autor de “O Mestre e Margarida” não a havia depositado ali para garantir uma edição póstuma. Seus escritos tinham sido apreendidos numa busca em casa. Os agentes copiaram o material, e essa transcrição acabou levando aos leitores páginas íntimas que, por muito tempo, se acreditou terem desaparecido. A polícia deixou pronta uma parte do trabalho dos futuros editores.

A busca ocorreu em 7 de maio de 1926, no apartamento em que Bulgákov vivia com sua segunda mulher, Liubov Beloziérskaia, em Moscou. Segundo a documentação reunida pelo Museu Mikhail Bulgákov, foram levados os diários e o manuscrito da novela “Coração de cachorro”. Durante os anos seguintes, o escritor apresentou pedidos de devolução, procurou intermediários e recorreu a Máximo Górki. Precisava convencer o Estado a lhe entregar o que havia escrito.

Há uma dificuldade nessa história que a versão mais redonda costuma eliminar. O museu registra dois relatos sobre os diários. Conforme a versão transmitida por Elena Serguéievna, terceira mulher do escritor, Bulgákov recebeu os originais de volta e os destruiu, conservando algumas folhas. Outra versão sustenta que os cadernos permaneceram na polícia. A devolução de manuscritos em 1929 faz parte da cronologia, mas o destino exato de cada documento exige esse cuidado. A cena do autor queimando tudo tem circulado com mais segurança do que as fontes permitem.

A cópia policial tem uma trajetória mais firme. A revista Index on Censorship publicou, em 1991, uma seleção traduzida para o inglês dos registros de 1923 e 1924, apresentada como proveniente da transcrição encontrada na Lubianka. Ao republicar o material em 2012, a revista voltou a identificar essa origem. É possível ler o resultado do serviço dos agentes. A ironia não depende de reconstituir uma fogueira.

O caminho do documentoDo confisco à leituraO original e a transcrição policial têm histórias diferentes.
1926 · apreensão dos diáriosCópia datilografada · arquivo da Lubianka1991 · trechos publicados pela Index
O que se sabe sobre os originais

O Museu Mikhail Bulgákov registra duas versões: devolução seguida de destruição pelo escritor, segundo Elena Serguéievna, ou permanência dos diários na polícia. A origem policial da cópia publicada está identificada pela Index on Censorship.

Antes de transformar a polícia em benfeitora da literatura, convém olhar para o motivo pelo qual os papéis estavam em suas mãos. O museu conserva o relato do interrogatório de setembro de 1926. Bulgákov explicou seu interesse pela vida da intelectualidade e seu modo satírico de observar a sociedade soviética. Quando lhe pediram os nomes das pessoas para quem havia lido “Coração de cachorro”, recusou-se a fornecê-los por razões éticas. Havia pessoas, além de textos, ao alcance daquela investigação.

O diário permite conhecer um escritor menos arrumado do que o personagem das homenagens. A seleção publicada pela Index reúne preocupações financeiras, doença, trabalho em jornal, encontros literários e comentários políticos. Bulgákov reclama das condições em que vive e se pergunta se terá forças para continuar escrevendo. A confiança no próprio talento pode aparecer muito perto do desânimo. Quem abre um diário esperando encontrar somente a versão monumental de um autor famoso costuma ter algum trabalho pela frente.

Também aparecem seus critérios de leitura. O médico que se tornava escritor lê outros escritores, faz distinções entre o talento de alguém e o prazer de conviver com essa pessoa, acompanha a própria dificuldade de publicar. Esses registros ajudam a devolver ao trabalho literário uma escala cotidiana. Há contas, um quarto inadequado, a saúde atrapalhando. São justamente as coisas que uma biografia muito ocupada com a posteridade corre o risco de comprimir.

A existência da transcrição produz ainda um desconforto. Uma cópia feita para examinar a intimidade de alguém passou a servir ao estudo dessa mesma intimidade. Mudaram os leitores, os interesses e o lugar de publicação. O documento continua trazendo a marca da circunstância em que foi obtido. Consultá-lo hoje não transforma a apreensão numa etapa necessária da carreira de Bulgákov, muito menos numa colaboração que ele tenha solicitado.

No catálogo de um escritor, diários costumam ocupar uma posição discreta, atrás dos romances e das peças. Neste caso, para chegar a essa prateleira foi preciso atravessar um arquivo policial. Os agentes procuravam material sobre o homem que vigiavam. Décadas depois, os editores encontraram ali páginas que puderam devolver à literatura.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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