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Bula AchadosUma árvore por volume

Um livro de Carl Schildbach começa a explicar seu assunto pela capa. A madeira usada para construí-lo pertence à espécie apresentada no interior. Ao abrir o volume, o leitor encontra folhas, frutos, sementes e outras partes da planta, organizados numa pequena caixa. Há algo de particularmente convincente nesse método. Antes de começar a leitura, já se tem nas mãos um pedaço daquilo que se pretende conhecer.

Schildbach, um autodidata que viveu de 1730 a 1817, montou sua biblioteca de madeira em Kassel, na Alemanha. O Museu Histórico Alemão situa a produção entre 1780 e 1800 e descreve uma coleção de mais de 500 volumes, dedicada sobretudo à flora local. Os exemplares pertencem ao Museu de História Natural de Kassel, instalado no Ottoneum. O conjunto é conhecido como xiloteca, nome dado a uma coleção de madeiras, neste caso organizada com uma ambição que ultrapassa bastante a amostra de marcenaria.

O formato tem consequências práticas. Fechados e colocados lado a lado, os recipientes podem ocupar uma estante. A lombada permite reconhecer o volume procurado. Aberto, o objeto oferece um espaço protegido para peças que dificilmente sobreviveriam soltas entre páginas comuns. Um fruto tem espessura. Uma semente pode escapar. A caixa resolve problemas que uma encadernação de papel não precisava resolver, e faz isso conservando a familiaridade de um livro.

Nas fotografias e descrições divulgadas pelo Museu Histórico Alemão, a coleção aparece acompanhada de informações escritas. É importante observar esse detalhe, porque a aparência incomum poderia fazer supor um capricho decorativo. O exemplar de sabugueiro apresentado pela instituição reúne o objeto, sua identificação e uma ficha informativa. As partes da planta fornecem evidências para reconhecer a espécie. A escrita ajuda a organizá-las.

Como funciona uma xilotecaMatéria e informaçãoA forma de livro acomoda uma coleção de partes da planta.
Exterior · madeira da espécie representadaInterior · folhas, frutos e sementesIdentificação · nome e informação escrita
Uma biblioteca de caixas

Os volumes são recipientes em forma de livro. O conjunto de Schildbach concentra-se sobretudo na flora local de Kassel; coleções de outras cidades mostram variações no modo de acondicionar e identificar as amostras.

Essas bibliotecas pertencem a um momento de entusiasmo pela classificação da natureza. O sistema de Lineu, com nomes que distinguem gênero e espécie, oferecia uma linguagem comum para aproximar coleções e comparar exemplares. Schildbach trabalhou nesse ambiente. A estante convertia uma variedade de plantas em unidades que podiam ser nomeadas, alinhadas e consultadas. O mundo vegetal entrava no gabinete com endereço próprio.

Ele não foi o único a adotar a ideia. O Universalmuseum Joanneum, em Graz, na Áustria, conserva outra xiloteca e explica como esses volumes eram construídos. Lombada e duas capas formavam as partes principais, unidas por tiras de couro que funcionavam como dobradiças. Dentro delas, pequenos ramos com folhas, flores e frutos podiam repousar sobre musgo. Sementes e pólen também eram guardados em recipientes menores. São características dessa tradição de colecionismo, e não uma descrição uniforme de todos os livros feitos por Schildbach.

A coleção austríaca ajuda a perceber a quantidade de trabalho escondida numa expressão tão simpática quanto biblioteca de madeira. Alguns volumes incluem cortes de galhos, carvão, lâminas ou pequenas amostras relacionadas aos usos da espécie. Há até cubos de madeira de um centímetro de lado destinados à determinação do peso específico. O que parece uma brincadeira com o formato de um livro também podia servir a perguntas muito concretas sobre o material.

Objetos assim exigiam coleta, seleção, montagem e habilidade artesanal. O Joanneum ressalta que eram produtos sofisticados, acessíveis a poucos, associados a bibliotecas de aristocratas e mosteiros com propriedades extensas. O conhecimento vinha acomodado num objeto caro. A beleza que hoje atrai o visitante também fazia parte de uma cultura de coleções particulares, com seus recursos e seus limites de acesso.

Há uma graça adicional em olhar esses volumes numa época em que estamos acostumados a separar o conteúdo de um livro do aparelho ou material que o apresenta. Numa xiloteca, a substituição da caixa por uma descrição deixa algo importante para trás. Uma fotografia pode mostrar a madeira. Uma ficha pode informar a espécie. O exemplar conserva junto aquilo que essas duas operações precisam representar.

A biblioteca de Schildbach permite acompanhar esse raciocínio sem muito discurso. Basta reparar no trajeto que vai da parte externa ao interior do volume. A madeira apresenta a árvore, a caixa guarda seus fragmentos, e a ficha dá um nome ao conjunto. Depois da consulta, tudo pode voltar à estante.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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