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Bula AchadosLeituras atrás das grades

Na capa havia cartões de Diwali. Dentro, as obras de William Shakespeare. O disfarce ajudou Sonny Venkatrathnam a conservar um livro na prisão de Robben Island, na África do Sul, e deu origem a um exemplar que hoje interessa tanto pelas peças impressas quanto pelas marcas deixadas nas páginas. Uma delas é a assinatura de Nelson Mandela, datada de 16 de dezembro de 1977.

Venkatrathnam era um preso político do regime do apartheid. O Shakespeare lhe pertencia. Antes de se tornar peça de exposição, o volume precisou sobreviver às regras e às inspeções da cadeia. Conforme o relato retomado pelo pesquisador David Schalkwyk numa entrevista à Folger Shakespeare Library, ele chegou a ser confiscado. O proprietário conseguiu recuperá-lo apresentando-o ao guarda como sua Bíblia.

Depois vieram os cartões enviados pela família, com imagens religiosas hindus, usados para recobrir o livro. A sequência ajuda a entender o apelido de “Bíblia de Robben Island”, mas também pede cuidado. O conteúdo continuava sendo Shakespeare. A proteção dependia de como os carcereiros identificavam o objeto, não de qualquer transformação das peças em escritura sagrada.

A edição de 1970, com o texto estabelecido por Peter Alexander, passou de mão em mão entre 1975 e 1978. Venkatrathnam convidou os companheiros a escolher passagens e assinar perto delas. O conjunto reúne 34 assinaturas, incluindo a do proprietário. Trinta e três outros presos participaram. É uma diferença pequena na conta, mas útil para evitar a imagem de 34 homens além daquele que lhes emprestou o livro.

Mandela escolheu uma passagem de “Júlio César” sobre a morte e a coragem. A associação parece imediata para quem conhece sua longa prisão. Ainda assim, a anotação não nos entrega tudo o que ele pensava naquele dia. Assinatura, data e trecho são documentos. O restante requer a prudência que muitas homenagens dispensam quando encontram uma boa frase ao lado de um nome célebre.

Billy Nair marcou palavras de Caliban em “A tempestade”, numa passagem em que o personagem reivindica a ilha como sua. Govan Mbeki preferiu a abertura de “Noite de Reis”, com sua ligação entre música e amor. As escolhas bastam para tornar o livro mais interessante do que uma antologia previsível de máximas heroicas. Havia espaço para desejos, humor e experiências que a condição de prisioneiro não esgotava.

Três leitores, três escolhasNa margemAs assinaturas ligam presos políticos a passagens diferentes de Shakespeare.
Nelson Mandela · “Júlio César”Billy Nair · “A tempestade”Govan Mbeki · “Noite de Reis”
Sobre os registros

As escolhas integram o exemplar de Sonny Venkatrathnam. Elas documentam leituras, mas não permitem reconstruir sozinhas os motivos ou todas as interpretações de cada leitor.

Também aparecem sonetos. A variedade impede que se leia cada marca como se fosse uma declaração programática de resistência. Schalkwyk chama atenção para os limites dessa interpretação, inclusive porque lembranças posteriores dos participantes não coincidem sempre com o significado que admiradores atribuíram às escolhas. Um leitor pode reconhecer sua situação numa peça e, no dia seguinte, querer ler alguma coisa que o leve para longe dela.

O gesto de pedir assinaturas acrescentou outra forma de companhia ao empréstimo. Quem abria o volume encontrava o texto inglês e podia encontrar, perto dele, o nome de alguém da mesma prisão. Não precisamos supor sessões solenes, conversas que não foram registradas ou uma leitura coletiva permanente. O próprio exemplar documenta uma circulação. É bastante.

A vida do livro não terminou na ilha. Em 2006, Venkatrathnam foi a Stratford-upon-Avon com sua mulher, Theresa, e a neta Teneille, levando o volume para uma exposição. O Shakespeare Birthplace Trust registra a visita e o encontro com a família. Em 2013, o exemplar foi apresentado também na Folger, em Washington, numa mostra dedicada a essa história.

Um livro que precisara esconder sua identidade passou a ser exibido precisamente por causa dela. Mas os cartões continuaram essenciais para compreendê-lo. Sem aquele revestimento improvisado, veríamos uma edição de Shakespeare com assinaturas importantes. Com ele, vemos também o trabalho de um leitor para não perder o direito de continuar lendo.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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