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Não poder ser quem você realmente é equivale a viver em uma prisão. Seu corpo se torna a jaula da qual você não consegue se libertar, e a sociedade assume o lugar do tribunal do júri, sempre com os olhos atentos a qualquer um de seus movimentos. Dentro de seu próprio mundo, você não tem liberdade e precisa viver como um espectador, sem nunca assumir as rédeas da própria vida. Assim é ser gay em uma família ou sociedade que o oprime e o rejeita. Não é uma questão de coragem, mas de sobrevivência. E o instinto de sobrevivência é uma lei da natureza que trouxe os seres humanos até onde estamos hoje, embora, para alguns, continuar vivendo signifique esconder uma parte de si.

Em “Meu Policial”, de Michael Grandage, Tom (Linus Roache) e Marion (Gina McKee) têm um casamento de pouco mais de quarenta anos. Quando um antigo amigo, Patrick (Rupert Everett), fica doente, Marion decide trazê-lo para casa e cuidar dele, pois odiaria vê-lo em um asilo. Seu marido, no entanto, demonstra uma enorme insatisfação com a chegada do hóspede. A presença de Patrick parece incomodá-lo até quando os dois não estão no mesmo cômodo. Quando Marion abre os antigos diários do amigo, o espectador é levado a quarenta anos antes, aos acontecimentos que fizeram Tom e Patrick deixarem de se falar.

Segredos impronunciáveis

Todos os envolvidos nesta história sabem o que se passou. O enredo se desenrola para que o espectador também descubra, como um pergaminho que vai se abrindo aos poucos. Cena a cena. No início de suas vidas adultas, Tom (Harry Styles) e Marion (Emma Corrin) começam a se envolver romanticamente e a planejar um futuro juntos. Ele é um jovem policial que deseja se aperfeiçoar culturalmente, conhecer um pouco mais do mundo que existe além de seu trabalho. Quer aprender sobre artes, literatura e música. Marion está estudando para ser professora, ama os livros e gosta de se alimentar de conteúdos intelectuais. Entre os dois, o interesse pelo conhecimento se torna mais uma oportunidade de aproximação.

Quando uma ocorrência leva Tom a conhecer Patrick (David Dawson), um curador de museu, os dois passam a se encontrar. Patrick tem familiaridade com aquele universo que tanto desperta a curiosidade do policial, e a convivência abre espaço para uma relação íntima. Enquanto se envolve com ele, Tom pede Marion em casamento. Os três começam a sair como um trio de amigos que se diverte pela noite, leva uma vida boêmia, visita museus, aprecia arte e assiste à ópera. Para Marion, aqueles encontros parecem fazer parte da vida que está construindo ao lado do homem que ama. Tudo parece estar bem, até que ela descobre que a relação entre Tom e Patrick é, também, sexual.

Ameaça à relação

Não demora para que Marion passe a enxergar o novo amigo como uma ameaça à vida do casal. Além do temor de perder Tom, existe o medo de que ele vá preso, já que as relações sexuais entre homens eram criminalizadas na Inglaterra daqueles tempos. O que os dois vivem na intimidade pode se transformar em motivo de punição diante dos olhos da sociedade. Sob a ameaça de ser descoberto, Tom abre mão do romance com Patrick e decide anulá-lo de sua vida, embora o amor continue existindo dentro dos dois. A separação permite que ele preserve seu casamento e sua imagem, mas exige que passe a viver sem o homem que deseja.

“Meu Policial” fala de amores não vividos, mas, sobretudo, de abdicar de si próprio. Quando Tom abre mão de Patrick, deixa de viver seu grande amor e de ter uma vida plena, mas também impede Marion de ter o mesmo. Ela permanece em um casamento atravessado por uma ausência que nenhum dos dois consegue preencher. Em determinada cena, Tom acusa Marion de arruinar a vida de Patrick. “Todos nós nos arruinamos”, ela retruca. De fato, as mentiras foram a causa dos males que marcaram a vida do trio, ainda que tenham servido, durante algum tempo, para sustentar a aparência de que tudo estava bem. Nossas escolhas sempre afetam, além de nós mesmos, as pessoas que vivem mais próximas de nós. É preciso cuidado com aquilo que prometemos e com a vida que aceitamos dividir sem poder nos entregar por inteiro.

Reflexão sobre as escolhas

Enquanto a câmera filma o mar, o cachorro que corre e a paisagem na janela, somos lembrados de que nosso tempo é finito e de que algumas chances só nos são dadas uma vez na vida. O mundo continua em movimento, mesmo quando passamos anos presos àquilo que não conseguimos viver ou deixar para trás. Quanto de nós, do nosso tempo e da nossa vida estaremos abrindo mão ao viver o que os outros esperam de nós? Quanto ainda será possível recuperar depois de tantos anos? O amor é mais poderoso do que parece. Ele passa como um furacão e pode ser devastador, sobretudo quando sua passagem deixa uma vida inteira de coisas que não puderam ser ditas.

Harry Styles, de ex-One Direction a ator e músico alternativo, parece conduzir bem seu percurso artístico e evolui como uma borboleta, oferecendo ao público disposto a apreciá-lo uma espécie de brisa fresca. Há curiosidade em vê-lo ocupar outros espaços e descobrir o que pode oferecer em cada um deles. Ele não se encaixa em rótulos e padrões e surpreende ao mostrar que é capaz de aceitar desafios e cumprir as missões a que se propõe com estilo e elegância. Em um filme sobre o sofrimento de quem precisa esconder a própria identidade, sua presença também convida a olhar para um artista que procura espaço para experimentar e ser mais do que esperam dele.


Filme: Meu Policial
Diretor: Michael Grandage
Ano: 2022
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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