No Dia de Ação de Graças, em uma cidade da Pensilvânia, Keller Dover (Hugh Jackman) procura sua filha de seis anos, que desapareceu enquanto brincava com uma amiga perto de casa. A investigação fica a cargo do detetive Loki (Jake Gyllenhaal), mas a falta de provas contra o primeiro suspeito leva o pai a agir por conta própria. Esse é o ponto de partida de “Os Suspeitos”, suspense de 2013 dirigido por Denis Villeneuve, no qual duas famílias precisam enfrentar a ausência das crianças e a possibilidade de que a polícia esteja procurando no lugar errado.
Keller e sua mulher, Grace (Maria Bello), passam o feriado na casa dos amigos Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis). As filhas mais novas dos dois casais, Anna (Erin Gerasimovich) e Joy (Kyla-Drew), saem para brincar e não voltam. Quando os adultos percebem o desaparecimento, começam a procurar pelas ruas próximas. Um trailer estacionado na vizinhança se torna a principal pista, pois as meninas haviam sido vistas perto do veículo. O que deveria terminar com uma refeição entre amigos vira uma busca sem qualquer indicação segura de onde elas estão.
Um suspeito sem provas suficientes
Loki localiza o trailer e detém seu motorista, Alex Jones (Paul Dano), um jovem com dificuldades cognitivas. O comportamento dele desperta desconfiança, mas os exames no veículo e o interrogatório não fornecem provas suficientes para mantê-lo preso. Para Keller, essa ausência de resultados é insuportável. Ele está convencido de que Alex sabe o que aconteceu e passa a considerar a libertação do rapaz uma falha da polícia.
A divergência entre o pai e o investigador dá força ao suspense. Keller quer alguém preso, uma informação, um endereço para onde possa correr. Loki precisa conferir pistas e demonstrar a ligação entre o suspeito e o desaparecimento. Ambos têm urgência, mas respondem a exigências diferentes. Villeneuve preserva essa diferença sem transformar o policial em um funcionário indiferente à dor das famílias. A libertação de Alex tampouco encerra a investigação, embora Keller a receba quase como uma desistência.
O pai assume a busca
Convencido da culpa de Alex, Keller o sequestra e passa a agredi-lo para arrancar informações sobre as meninas. É uma decisão brutal, tomada por alguém que acredita estar fazendo o necessário para salvar a filha. O sofrimento explica sua pressa, mas não oferece garantia de que ele escolheu o homem certo. Enquanto insiste em obter uma confissão, o pai também afasta a possibilidade de ouvir qualquer coisa que contrarie sua certeza.
Hugh Jackman dá peso a essa transformação. O corpo rígido, a voz elevada e a dificuldade de escutar fazem de Keller uma presença sufocante. Em alguns trechos, a intensidade fica excessiva, com pouco espaço entre uma manifestação de raiva e outra. Ainda assim, o ator sustenta o aspecto mais incômodo do personagem. É possível reconhecer seu desespero e, ao mesmo tempo, temer o que ele fará com o rapaz que mantém preso. A violência acrescenta outra vítima à história sem assegurar qualquer avanço na procura.
Um policial cercado de cobranças
Jake Gyllenhaal trabalha com gestos menores. Loki observa, insiste nas perguntas e tenta manter a concentração diante das cobranças de Keller. Seus tiques e sua impaciência sugerem um homem desgastado, que precisa continuar trabalhando mesmo sem saber qual pista merece prioridade. A atuação ganha força porque ele nunca parece inteiramente à vontade, nem quando ocupa uma sala de interrogatório e tem autoridade para fazer as perguntas.
Villeneuve alterna a investigação policial e as ações do pai, deixando o público acompanhar buscas que já não seguem o mesmo caminho. Essa escolha mantém uma dúvida importante durante boa parte da sessão. Keller está conseguindo chegar a algum lugar ou apenas consumindo tempo com sua própria convicção? O diretor sabe prolongar essa incerteza, embora a sucessão de pistas e suspeitos às vezes revele o esforço para adiar uma descoberta. Quando isso acontece, os personagens correm o risco de perder espaço para o quebra-cabeça.
Duas famílias à espera das filhas
Viola Davis, Terrence Howard e Maria Bello ajudam a preservar a dimensão familiar do desaparecimento. Nancy, Franklin e Grace reagem de maneiras diferentes à ausência das meninas e à insistência de Keller. Nem todos conseguem transformar o sofrimento em ação. Há quem procure, quem paralise e quem aceite decisões terríveis por não suportar a ideia de ficar esperando. Essas diferenças impedem que os pais sejam tratados como um grupo com sentimentos e comportamentos idênticos.
O espaço reservado às mães, porém, poderia ser maior. Davis e Bello conseguem transmitir exaustão e medo sem precisar elevar a voz, mas a atenção retorna com frequência aos dois protagonistas. Permanecer um pouco mais com Nancy e Grace permitiria acompanhar melhor o que acontece nas casas enquanto Keller sai e Loki trabalha. A espera também tem seus acontecimentos, sobretudo quando qualquer telefonema pode trazer uma notícia sobre as filhas.
A chuva, os interiores escuros e as ruas pouco movimentadas reforçam o isolamento de quem procura pelas crianças. Villeneuve faz bom uso desses ambientes ao dificultar a observação e prolongar a espera por uma informação confiável. “Os Suspeitos” é mais convincente quando aproxima o trabalho de investigação do desgaste das famílias, sem precisar acrescentar uma nova surpresa a cada passagem. Mesmo com alguns excessos na atuação de Jackman e no acúmulo de pistas, o suspense permanece doloroso porque a pergunta mais urgente continua sendo a mais simples. Há duas meninas desaparecidas, e cada suspeita errada mantém os adultos longe delas.

