Discover
Bula AchadosÀ procura da autora

O livro já tinha leitores, críticas e lugar entre os mais vendidos quando ainda faltava descobrir quem o havia escrito. “The Bondwoman’s Narrative” chegou às livrarias em 2002 com a assinatura de Hannah Crafts. O nome estava no manuscrito. Encontrar a mulher por trás dele levaria mais de uma década, num trabalho em que até o papel usado para escrever entrou na investigação.

Henry Louis Gates Jr. havia adquirido o manuscrito em 2001. Era um romance do século 19, apresentado como obra de uma mulher que escapara da escravidão na Carolina do Norte. A edição preparada pelo pesquisador transformou aquele documento em sucesso de público no ano seguinte. A história editorial tomou assim uma ordem pouco habitual. Primeiro veio o reconhecimento do romance. A biografia da autora continuou por fazer.

O objeto oferecia bastante trabalho. Segundo o registro de Yale sobre sua incorporação à Biblioteca Beinecke, eram 301 páginas manuscritas. Gates autenticou o documento, editou o texto e providenciou sua publicação em abril de 2002. Havia, portanto, muito mais que um nome solto ou a notícia de um livro desaparecido. A escrita estava disponível para exame, com a extensão de um romance inteiro. Não era preciso reconstituir a obra a partir de lembranças alheias.

Ainda assim, reconhecer sua procedência encontrou resistência. Gregg Hecimovich, que acabaria identificando a escritora, começou desconfiando da atribuição. As referências literárias pareciam sofisticadas demais para uma mulher recém-saída do cativeiro. Ele chegou a considerar uma sobrinha branca da família Wheeler, mencionada na narrativa, como possível autora. A hipótese tinha uma comodidade evidente. Deixava a familiaridade com os livros do lado de quem já se esperava encontrá-la.

A pesquisa o obrigou a rever esse ponto de partida. Num relato publicado pela Universidade Vanderbilt em 2014, Hecimovich explicou que os Wheeler empregavam pessoas escravizadas alfabetizadas em tarefas de correspondência. Obras literárias eram lidas e recitadas na casa. O pesquisador percorreu arquivos, documentos públicos, papéis particulares e entrevistas. Ao confrontar as pistas, foi descartando candidatas, inclusive aquela em que inicialmente acreditara.

Em 2013, anunciou a identificação de Hannah Crafts como Hannah Bond, mulher escravizada pela família Wheeler. A apuração ganhou também uma prova material. Conforme o relato da Harvard Gazette, especialistas relacionaram o papel do manuscrito a lotes utilizados na casa dos Wheeler em 1856 e 1857. O suporte da escrita ajudava a situar a autora no ambiente que a narrativa descrevia. Uma folha podia esclarecer o que uma assinatura, sozinha, não resolvera.

O livro chegou antes da biografiaRomance, identificação e biografia
2002Publicação de “The Bondwoman’s Narrative”.
2013Gregg Hecimovich anuncia a identificação de Hannah Bond.
2023Publicação de “The Life and Times of Hannah Crafts”.
Por que a assinatura não bastava?

Hannah Crafts era o nome inscrito na obra. A pesquisa precisou relacioná-lo a Hannah Bond por meio de registros históricos, pistas narrativas e exame documental. A cronologia distingue a circulação do romance da reconstrução da vida da autora.

O intervalo entre a publicação e a identificação merece atenção. Durante aqueles onze anos, o romance pôde ser lido sem que a pesquisa tivesse estabelecido quem era Hannah. O leitor não precisava esperar uma conclusão biográfica para acompanhar a história. Para o historiador, porém, a autoria mudava perguntas importantes. Quem tinha acesso à leitura? Em que condições uma mulher escravizada podia escrever? Que documentos permitiam acompanhar sua passagem de uma casa a outra?

A resposta exigia cuidado com uma armadilha comum. Um romance que aproveita a experiência de sua autora não se converte por isso numa declaração literal sobre cada episódio de sua vida. É preciso confrontar nomes, lugares e acontecimentos com outros registros. Aceitar toda cena como documento seria um atalho tentador, sobretudo numa pesquisa com tantas lacunas, mas eliminaria justamente a liberdade de invenção que faz daquele manuscrito uma obra literária.

A investigação prosseguiu depois do anúncio de 2013. Em 2023, Hecimovich publicou a biografia “The Life and Times of Hannah Crafts”. A apresentação do livro pelo National Humanities Center situa a fuga de Hannah da Carolina do Norte em 1857 e o trabalho no manuscrito durante seu abrigo em Nova York. Destaca também as experiências de cinco mulheres escravizadas que entraram na composição do romance. Reconhecer a autora abriu caminho para procurar outras pessoas em torno dela.

Essa ampliação importa porque a história poderia terminar facilmente na satisfação de solucionar um enigma. Encontrou-se o nome, resolveu-se o caso. O trabalho posterior mostra quanto restava examinar. As relações de Hannah, suas leituras e o destino dado à experiência de outras mulheres não cabiam numa correção de catálogo. A identificação permitia voltar às páginas com novas informações, sem dispensar a leitura delas.

Hoje o leitor pode chegar a Hannah pela edição de seu romance ou pelo livro dedicado à sua vida. A ordem ficou menos estranha. Em 2002, porém, quem comprava “The Bondwoman’s Narrative” levava para casa uma obra cuja assinatura ainda obrigava os pesquisadores a sair à procura de sua dona.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

Leia Também